Recordar Francisco Lázaro. Parte 1.

“Confirmou-se o facto. O governo não tem recursos monetários, nem verba no orçamento para a constituição de uma equipa portuguesa, que fosse concorrente aos jogos atléticos da V Olimpíada, em Stockolmo. Assim o declarou o ministro do Interior à direcção do Ginásio Clube Português, há quatro dias, quando desejou informar-se dos auxílios oficiais com que podia contar. A Alemanha, cuja potência económica e política se deve impor, pelo menos com o número, envia a Stockolmo verdadeiras falanges de Hércules. Os Estados Unidos da América, como o fizeram em Londres em 1908, serão representados pela élite desportiva de 110 milhões de habitantes, por uma centena de formidáveis atletas. (…) A Inglaterra, o Canadá, a África do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, uniram os esforços do imperialismo inglês para o triunfo da bandeira britânica. O próprio Japão, que há muitos anos rivaliza na ciência e na actividade com a civilização europeia, já indicou, em princípios de Janeiro, a dúzia de campeões, aos quais foi confiada a difícil, mas honrosa empresa, de representar o império do Sol nascente. (…) Só Portugal e Espanha não concorrem! Andamos afastados da Europa e da sua gente civilizada e os avanços evolutivos de um sistema completo de educação são menos conhecidos em Portugal que na Oceânia! Esses ecos de civilização têm mais dificuldade em transpor os Pirenéus que atravessar o Atlântico!” em Os Sports Illustrados, 10 de fevereiro de 1912.

Francisco Lázaro (1888-1912) foi o primeiro maratonista português a participar em provas internacionais. Foi o porta-estandarte da pequena comitiva portuguesa na primeira participação lusa nos Jogos Olímpicos, os da V Olimpíada que se realizaram em Estocolmo em 1912, numa época em que o desporto era visto como um entretenimento das elites, tendo a participação portuguesa sido solicitada pessoalmente pelo Rei D. Carlos a Pierre de Coubertain. Não obstante as dificuldades, a representação portuguesa segue para Estocolmo num paquete da Mala Real Inglesa, financiada pelos grupos privados que ajudaram a introduzir e implementar a prática do «Sport» em terras lusas. Dos seis representantes apenas Lázaro faz parte do “povo”, pouco habituado a usos distintos como o fraque e talheres:

“(…) Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro que se afastava socialmente de nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda me lembro, quando, a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço… E lá fui eu e o Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o aconselhávamos a comedir-se: «Não faça isso… não coma com a faca…»… bom rapaz, o Lázaro!”  Entrevista de Armando Cortesão a Romeu Correia em 1988.

Carpinteiro de profissão, trabalhava numa pequena fábrica de carroças na Travessa dos Fiéis de Deus no Bairro Alto em Lisboa, era o mais “popular” dos atletas da comitiva portuguesa. Francisco Lázaro era o corredor do povo, que treinava diariamente a caminho do trabalho, correndo da sua casa em Carnide até ao Bairro Alto, competindo alegremente com os transportes públicos da época, os “Americanos”, incentivado pelo apoio dos lisboetas. Não tinha adversário à sua altura em Portugal e, quando chegava a uma prova, sussurrava-se num misto de inveja e admiração, que a competição passaria a ser apenas pelo segundo lugar.

“…depois de passar os dias inteiros a fazer portas e janelas, bancos e mesas, a sonhar com pianos, …fechava o portão da oficina e corria e rasgava as ruas de Lisboa. …chegava cedo às corridas que aconteciam aos domingos de manhã. Apanhava comboios em Santa Apolónia e, sozinho, viajava em segunda classe para os arredores ou, a um ritmo sereno, corria até diferentes zonas da cidade. Quando havia maratonas… chegava e os outros corredores olhavam-no ao longe. Nesses olhares podia haver medo ou desdém, mas havia medo e, por isso, fingiam que havia desdém. Quando passava a correr, as pessoas tratavam-no pelo nome. Antes de passar, as pessoas comentavam: vem aí o Lázaro. Quando passava a correr, as pessoas diziam: força, Lázaro! Como se ouvisse, ele corria através de quilómetros que ficavam marcados no seu rosto. Perto da meta, chegavam corredores que, nos seus últimos esforços, podiam puxá-lo pela camisola, podiam dar-lhe murros nas costas, podiam derrubá-lo, mas ele chegava sempre à frente e, talvez a coxear, talvez com as palmas das mãos esfoladas, talvez com os joelhos a escorrerem fios de sangue, era glorioso e infinito.”  em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

Francisco Lázaro era a mais consistente esperança portuguesa para uma medalha nos Jogos, uma vez que, em Março de 1912, tinha melhorado o seu recorde pessoal e nacional na maratona, com o fantástico tempo 2h52m08s, numa prova particularmente difícil que incluía a subida da Calçada de Carriche. O recorde olímpico, registado em Londres em 1908 era de 2h55m, o que colocava Lázaro na lista dos principais favoritos à vitória em Estocolmo.

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