Recordar Francisco Lázaro. Parte 2.

Domingo 14 de julho de 1912. O dia estava sufocante, 32ºC à sombra, um calor invulgar para Estocolmo.

Francisco Lázaro almoçou às 10 horas. Estava determinado e confiante. “Ou ganho ou morro”, terá dito ao seu colega António Stromp, no caminho para o estádio. No balneário, minutos antes da partida, untou todo o corpo com uma substância sebosa, convencido que se protegia do calor.

“…silêncio formado pelos corredores a vestirem-se, alguns a benzerem-se, e pelas vozes do estádio, invisíveis, depois das paredes, como se não existissem e como se existissem mais do que tudo, como o medo. Depois, o silêncio dos pequenos passos nervosos que os corredores fingem, como se estivessem a fazer ginástica. Começo a espalhar a graxa pelo corpo. Mergulho os dedos dentro da lata cheia de graxa e, quando os deslizo pelas pernas, braços, ombros, faces, torno-me brilhante. O meu corpo transforma-se em músculos a brilhar. As mangas da camisola marcam uma linha onde a pele muda de castanha para branca. As minhas mãos espalham graxa sobre essa linha e dão-lhe brilho. É esta ciência que me vai fazer ganhar. Sinto as minhas próprias mãos a tocarem-me no corpo como se fossem as mãos de outra pessoa. Nestes segundos marcados por sapatilhas a serem atadas com um laço e com um nó, sinto os olhares e o espanto escondido dos outros corredores. Viram a cabeça para outro lado, mas olham para mim porque nunca viram nada assim. Limpo as paredes da lata e espalho o último resto de graxa. …um homem de gravata que faz sinais para nos chamar. Numa fila desordenada, calados, os corredores saem todos. Saio também.” em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

Apresentou-se na partida sem nenhuma protecção na cabeça, à semelhança do seu adversário japonês, iludido pelo que tinha ouvido dizer sobre o clima da Suécia, país de dias frescos, cinzentos e chuvosos.

” Sob a claridade, rasgam-se vozes. A espera de mil vozes misturadas é uma pele assente sob a luz. O tamanho do estádio abre-se ao céu. O céu poderia agora escorrer sobre este estádio. Seria necessário o céu inteiro para o encher. Se me chego a uma sombra, sinto o fresco na minha pele oleada. Antes da viagem, um homem que me encontrou à saída da oficina explicou-me que a Suécia é mais fresca do que Lisboa. Ou queria enganar-me ou não sabia. Está o mesmo calor que costuma estar em Lisboa em marés de agosto. …Os passos dos corredores levantam o cheiro de terra seca e queimada. Encosto a palma da mão a uma vedação e mexo os pés apenas para os habituar às sapatilhas novas. Os outros correm devagar de um lado para o outro. Alguns fazem ginástica. Não quero cansar-me já. Olho para eles. Deixo de olhar para eles.” em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

13H48. É dada a partida da maratona dos jogos da V Olimpíada.

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4 comments

  1. já conhecia esta triste história
    de como se corria antigamento
    sem os equipamentos e conhecimentos
    que agora estão ao nosso alcance

    1. de facto é uma história interessante e que remete aos primórdios do atletismo em portugal. ainda descobri mais uns factos interessantes que vou publicar em breve. abraço.

    1. esta é uma história de abnegação e sacrifício, que teve como consequência o preço mais alto que um ser humano pode pagar, a morte. francisco lázaro merece ser lembrado e honrado e existem corredores empenhados em fazê-lo. cumprimentos e obrigado pela visita.

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