Recordar Francisco Lázaro. Parte 3.

“Começou a maratona. Vai entre os primeiros. É o único que corre de cabeça descoberta. A voz do locutor são as imagens daquilo que diz. São imagens diferentes nos olhos de cada um. Saem do estádio. O Francisco vai entre os primeiros. …O Francisco ultrapassa um corredor. O Francisco ultrapassa outro corredor. …O locutor repete que na Suécia está muito calor. …Depois de alguns quilómetros, minutos, o locutor diz que o Francisco parece ter alguma coisa gordurosa na pele, talvez graxa, óleo. …diz que vai a bom ritmo. Diz que se aguentar a maratona toda a este ritmo, a medalha de ouro será sua. …diz Portugal. O Francisco atravessa uma ponte. …Um corredor aproxima-se dele, vai ultrapassá-lo, mas ele não deixa. Arranca a correr a toda a velocidade. …O Francisco vai isolado em primeiro lugar. Sete quilómetros. A voz acesa do locutor. …Dez quilómetros. Doze. O Francisco abranda. …Diz que o Francisco começa a perder lugares. Diz que se nota o cansaço no seu rosto. …começa a ficar para trás. Dezassete quilómetros. Passam grupos de corredores por ele. O sol da Suécia queima. Nota-se fraqueza no corpo do Francisco. Corre de maneira descoordenada. É o calor que está a cansá-lo, a drenar-lhe toda a energia. Vinte quilómetros. O locutor elogia o esforço do corredor português. …repete a palavra esforço muitas vezes. Utiliza vários verbos: aguentar, lutar, resistir: e sempre a palavra esforço. Vinte e um quilómetros. O Francisco cai. …levanta-se. Corre devagar, desorientado. …A distância passa agora muito lentamente. O corredor que está em primeiro vai já muito longe. Inalcançável. …Vinte e cinco quilómetros: o Francisco cai de novo. Levanta-se de novo. A voz do locutor é grave e torturada… pergunta-se quanto tempo mais conseguirá o Francisco aguentar. Arrasta os pés no chão. Portugal. Trinta quilómetros. O Francisco caí exausto. O seu corpo deitado é rodeado por pessoas. Depois de pousarem o Francisco numa maca e de o levarem para o hospital, o locutor falou em morte. …Exaustão. A maratona tinha terminado.”  em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

Francisco Lázaro caiu pela derradeira vez na colina de Öfverjärva. Foi prontamente assistido por um médico e, ainda prostrado na estrada, foi-lhe aplicado gelo na tentativa de fazer baixar a temperatura corporal que tinha subido aos 42,1º. Transportado inconsciente e em estado crítico para o hospital Serafimer de Estocolmo, morreu na madrugada do dia 15 de julho de 1912, sem ter voltado a recuperar a consciência.

O sebo tapou-lhe os poros da pele impedindo a transpiração, o extremo calor e a cabeça descoberta fizeram o resto. Perdeu-se a esperança da medalha de ouro na maratona e o melhor corredor português do seu tempo. Prematuramente, aos 24 anos de idade.

74 anos depois, a 12 de agosto de 1984 na XXIII Olimpíada, Carlos Alberto de Sousa Lopes reescreveu a história.

Anúncios

7 comments

    1. tenho pena de não poder participar na homenagem a francisco lázaro juntamente com os restantes compatriotas, mas nesse dia estou a planear correr entre benfica e a travessa dos fiéis de deus onde o malogrado atleta trabalhava. só ainda não consegui descobrir com exactidão o local onde lázaro viveu em benfica. obrigado pelo link das fotos.

      1. O link da “Solskensolympiaden” com imagens ao vivo só estará disponível até finais de Junho.
        Aqui estão outras à saída do Stockholms Stadion:

        http://cidadanialx.blogspot.se/2011/07/faz-esta-madrugada-99-anos-que.html

        Também já encontrei duas fotografias onde Lázaro é perfeitamente reconhecível à espera do tiro de partida e, depois já fora do Stockholms Stadion. Essas vou publicar no meu blog a 14 de Julho. Passei a minha infância a poucas centenas de metros da sepultura de Lázaro (Cemitério de Benfica), mas nunca soube onde teria vivido. Infelizmente estou longe demais de Portugal para tentar saber….mas talvez na Conservatória do Registo Civil que corresponde a Benfica ?

        Se por acaso descobrir essa morada….diga coisas.

        cumprimentos

  1. Agradeço-lhe a possibilidade de ler a história, agora de forma mais pormenorizada, de alguém que ficará para sempre ligado à minha modalidade de eleição. Excelente relato, enriquecido com excertos da obra de José Luís Peixoto. Tenho pena de muito provavelmente não conseguir acompanhá-lo na iniciativa que teve de prestar homenagem ao homem e atleta. Nasci e vivi cerca de 25 anos em Benfica. Fui sócio durante alguns anos do Clube Futebol Benfica, o Fó-Fó como é conhecido em Benfica. Frequentei muitas vezes o estádio Francisco Lázaro e pratiquei algumas modalidades. Mas sei que irá decerto ter muita e boa companhia. Cumps

    1. a história de lázaro está contada, mas ainda falta a perspectiva familiar, nomeadamente os anos subsequentes da viúva e da filha. é nesse capítulo que ando a trabalhar e que irei partilhando nos próximos tempos. obrigado pela visita.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s