Franscisco Lázaro. Para além da morte.

“Não há desporto sem excessos”

Pierre de Coubertain

No próximo dia 15 de julho assinala-se o centenário da morte do maior maratonista português da sua época.

“O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida da maratona, que o procurámos no balneário e o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo. …ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração cutânea nessa parte do corpo… e outra coisa: só ele e um japonês é que foram de cabeça descoberta àquele sol…” Entrevista de Armando Cortesão a Romeu Correia em 1988.

“Passam grupos de corredores por mim. Não sei que vento os leva. O sol aperta-me de encontro ao chão. O sol dobra-me as costas, o chão puxa-me o peito, mas eu sou mais forte, mais forte, maior do que a exaustão. Há muito tempo que conheço o instante em que o corpo começa a repetir: pára, pára, pára. As minhas pernas não param. Pára, pára, pára. Mas continuo a alternar os braços à frente do tronco, como se desse murros no ar, como se lutasse com o ar e o tornasse cada vez mais fraco, cada vez mais próximo de desistir. E o corpo é mais pesado do que o navio que me fez partir de Lisboa. Pára, pára, pára. Não paro. Agora, passam grupos de corredores por mim, o vento leva-os, mas eu sou maior do que a exaustão. O sol, derrotado, irá deixar-me o silêncio. Na minha pele, a graxa especial que me cobre voltará a ser fresca. Deixarei de ouvir a voz que se repete na minha cabeça: o sol. Continuarei a ouvir a voz que existe no centro de mim: a minha vontade. O sol irá deter-se a torturá-los e hei-de passar vitorioso, o ar voltará a ser leve, agradecerei ao vento que me passar pelas faces para refrescar-me. Não desisti, não desisto agora.” em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

A causa do óbito, apesar de conhecida, continua a suscitar polémica, sendo que uma das duas versões em discussão terá sido a verdadeira. Ou uma combinação de ambas. Fica o registo através de dois artigos da autoria do jornalista Cipriano Lucas, publicados no DN de 15 de julho de 2009.

artigo 1; artigo 2

“…peso, as pernas, os braços a alternarem-se. Ou talvez seja o sangue dentro do corpo a pesar-me, a esgotar-me. A camisola e os calções colam-se à graxa. O suor que não transpiro ferve-me por baixo da pele. Talvez seja o suor a pesar-me, a esgotar-me. As casas são cada vez mais distantes. As casas ao meu lado. As pessoas nas janelas. Não olho para os corredores que passam por mim. Olho para as minhas pernas: o seu movimento perpétuo. Os pés a tocarem no chão, a elevarem-me, a fazerem-me avançar. As pernas. Tropeço em mim próprio. Caio sobre as palmas das mãos e levanto-me. Não posso parar. Esfrego as mãos para expulsar da pele a memória das pedras, dos grãos soltos de areia. As pedras ardem: brasas. A imagem de Estocolmo ondula. As fachadas das casas contorcem-se. Crescem bolhas nas cores das casas, buracos… caio sobre mim próprio: pedras: a minha face assente sobre a estrada, o mundo turvo a partir dos meus olhos, a minha boca a sorver pó, as minhas pernas queimadas, brasas, os meus braços queimados, o meu coração, o meu peito a respirar…tenho de ir ao encontro do meu pai.” em Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto.

“O team português que foi a Stockolmo volta dizimado pela morte. Francisco Lázaro, aquele heróico e valente rapaz que tantas vezes aplaudimos e em quem depositámos as melhores esperanças de que saberia defender com o brio indomável, esta forte e destemida raça portuguesa, lá ficou dormindo o sono eterno (…). Não tinha ele uma noção rigorosa – longe disso – dos métodos de treino, nem das medidas higiénicas que têm de adoptar os atletas quando pretendem pôr em prática altos empreendimentos. E o que Lázaro pretendia era nem mais nem menos do que atacar o recorde da hora pedestre. (…) Na pureza ingénua de modesto filho do povo, Lázaro era um “sportsman”, no que a palavra tem de mais perfeito e de mais sincero; simples operário, ele tinha a grandeza da alma de um ianque, curvando-se resignado perante a própria derrota, não deprimindo e rebaixando os vencidos. (…) O atleta da minha eleição caiu para sempre, morreu; não volta coberto de louros (…) Mas na sua queda, na queda do herói não foi arrastada a bandeira da Pátria, essa ergueu-se alta e trémula ovante como a flâmula italiana de Dorando Pietro na Olimpíada de Londres e como a bandeira helénica solta ao vento, quando o soldado de Maratona caía exânime às portas de Atenas depois de anunciar a vitória sobre os persas.” do jornal A Luta de 16 julho de 1912.

O regresso do corpo do malogrado atleta português a solo pátrio só aconteceu 2 meses após o óbito, devido às dificuldades financeiras do Comité Olímpico Português da época. Na Suécia, 5 dias depois da sua morte, 24 mil pessoas comparecem no Estádio Olímpico para as homenagens póstumas, que incluíram um Sångardag – Dia Cantante. Os fundos angariados nessa iniciativa rondaram as 14.000 coroas (aproximadamente 70.000 euros nos dias de hoje), os quais foram entregues à filha do atleta quando esta atingiu a maioridade.

As exéquias fúnebres de Francisco Lázaro realizaram-se no dia 23 de setembro de 1912, com um cortejo náutico e posterior velório do corpo em câmara ardente na residência oficial do Ministro da Marinha. Finalmente, a 24 de setembro, o povo de Lisboa acompanhou o seu herói à morada final no cemitério de Benfica, onde repousa há um século.

“Ou ganho ou morro”. Cumpriu-se a profecia.

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