colinas de lisboa. parte 2.

vista de lisboa desde o castelo de são jorge.

“uma cidade do sul, uma cidade ao mesmo tempo ardente e fresca que continha no horizonte a promessa do mar e do vento salgado varrendo-lhe as colinas.” simone de beauvoir

o percurso das colinas de lisboa é uma viagem pelos pontos mais altos da cidade e um roteiro das suas mais belas vistas. nas 8 colinas visitadas estão 9 dos principais miradouros da capital, que oferecem uma panorâmica ímpar da mesma. para início do percurso optei pela colina de santo andré, pelo simbolismo histórico que possuí.

conta-se que d. afonso henriques, aproveitando as qualidades estratégicas da região aqui instalou, em 1147, as suas tropas para atacarem a cidade. com o terramoto de 1551, que fez sair muitos moradores da cidade antiga, estes escolheram as colinas de santo andré e da graça por serem muito altas e, na altura, menos ocupadas e de “melhores ares”. muitas famílias nobres instalaram-se na região e adquiriram quintas onde construíram casas de campo, que mais tarde dão lugar a grandes palácios localizados sobretudo ao longo de ambas as calçadas e ainda no largo da graça. nesta colina está situado o miradouro da senhora do monte, do qual, na minha opinião, se tem a mais bela e abrangente vista da cidade.

miradouros da graça, sra do monte e sta lúzia.

percorro umas poucas centenas de metros e estou na colina da graça, a mais alta da capital. a designação “graça” remonta ao ano de 1305 quando ali se estabeleceram os monges agostinhos após fundarem o convento de nossa senhora da graça. data igualmente dessa época a primitiva urbanização da zona, que até aí mais não era do que quintas e terras de semeadura pertencentes a casas conventuais e particulares. desde o miradouro da graça (rebaptizado de sophia de mello breyner andresen) tem-se uma belíssima panorâmica da baixa pombalina.

a terceira paragem é na colina de são jorge, também chamada do castelo, dado o seu ex-libris, o castelo de são jorge, ali se situar. reza a história que nela apareceu o primeiro povoado que deu origem a lisboa, tendo sido descobertos, por baixo do castelo, vestígios do oppidum romano. a área geográfica desta colina abrange actualmente os bairros da mouraria, do castelo e, a sudeste, parte do de alfama. a panorâmica da cidade de lisboa e do estuário do tejo justificam, por si só, a visita deste monumento e miradouro.

apreciadas as vistas sigo caminho para a colina de são vicente, a quarta do percurso. nela situa-se o bairro de alfama e o convento de são vicente de fora, bem como os miradouros das portas do sol e de santa lúzia, os quais, em termos de vistas, permitem desfrutar da parte oriental de lisboa e do rio tejo, bem como da margem sul.

miradouro das portas do sol

deixo o largo das portas do sol para trás e entro na parte mais fácil do percurso, começando a descer a encosta para a colina de santana. localizada a oeste do castelo de são jorge, constituíu, em tempos antigos, um esporão entre a ribeira de valverde a poente, e a ribeira de arroios a nascente, que na sua confluência delimitavam o castelo a sul. nesta colina situa-se o jardim do torel, um bonito e tranquilo local com um miradouro do qual se tem uma soberba vista sobre a baixa de lisboa e a colina adjacente.

miradouros do torel e s. pedro alcântara.

prossigo o caminho descendo a calçada do lavra e estou na avenida da liberdade, com metade do percurso efectuado. como tudo o que desce tem que subir, é pela calçada da glória que sigo em direcção à sexta paragem, a colina de são roque. frequente e erradamente designada como colina de são pedro de alcântara (que nunca existiu pois essa designação é de uma rua e de um jardim bem mais recentes), nela situa-se o miradouro de são pedro de alcântara, talvez fonte da confusão. na geografia da cidade abrange toda a área que hoje conhecemos como bairro alto.

a sétima paragem é na colina das chagas, cujo nome remonta à igreja que nela edificaram os marinheiros da rota da índia em louvor às chagas de cristo, e corresponde actualmente à área onde se situa o largo do carmo e envolvente. é do alto do elevador de santa justa que se obtém a vista das colinas em frente e sobre o reticulado uniforme da baixa pombalina.

elevador sta justa e miradouro de sta catarina.

com o percurso na sua parte final, subo ao chiado e dirijo-me à última paragem, a colina de santa catarina, cuja área vai do largo do camões até à calçada do combro. o local mais procurado desta colina é o miradouro de santa catarina, do qual se tem uma vista deslumbrante sobre o rio e a margem sul. é muitas vezes designado como miradouro ou jardim do adamastor, por causa da escultura ali existente que representa a mítica figura.

este percurso é um postal ilustrado. percorrer estas 8 colinas é fazer um dos roteiros turísticos mais requisitados da capital, comprovado pela quantidade de visitantes estrangeiros com que me cruzei ao longo do trajecto. apesar de curto, nos seus 6 km de extensão, o percurso das colinas de lisboa é exigente em termos físicos, dado que percorrer todos estes lugares implica um sobe-e-desce constante por ruas e vielas de alguns dos bairros mais típicos da cidade. porém, o esforço é largamente compensado pelas incríveis vistas panorâmicas que nos regalam os sentidos.

vale a pena explorar a “mui nobre e sempre leal cidade de lisboa”. aventurem-se!

características do percurso – piso: duro (alcatrão e calçada); distância total: 6 km; retorno: opcional; água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 4; coordenadas gps do ponto inicial: n38º 43.148′, w9º 07.959′.

percurso e distâncias parciais – sra do monte/santo andré – r. damasceno monteiro/largo da graça – graça: 0,6 km; calçada da graça/largo rodrigues de freitas/r. do castelo de s. jorge – castelo/são jorge: 0,75 km; largo do menino de deus/largo das portas do sol – portas do sol e sta lúzia/são vicente: 0,7 km; largo do menino de deus/largo rodrigues de freitas/calçada de sto andré/largo do terreirinho/r. dos cavaleiros/praça martim moniz/r. de s. lázaro/r. manuel bento de sousa/campo dos mártires da pátria/r. júlio de andrade – torel/santana: 1,7 km; calçada do lavra/largo da anunciada/av. da liberdade/calçada da glória – s. pedro de alcântara/são roque: 0,9 km; r. s. pedro de alcântara/largo trindade coelho/calçada do duque/r. da oliveira ao carmo/largo do carmo – sta justa/chagas: 0,6 km; trav. do carmo/r. serpa pinto/r. nova da trindade/largo do chiado/r. do alecrim/praça luís de camões/r. da horta seca/r. marechal saldanha – sta catarina: 0,8 km.

2 comments

  1. Excelente documento. Eu estou a fazer um foto-filme sobre as Colinas de Lisboa e as suas páginas constituíram um excelente ponto de partida para planificar e documentar o percurso.
    Continuo a não saber qual a ordem de apresentação: Antiguidade, altura, percurso ou a ordem proposta no séc. XVII, no livro das Grandezas de lLsboa, de Frei Nicolau de Oliveira.

    1. A ordem de apresentação teve apenas a ver com a conveniência do percurso. A ideia foi passar por todas elas fazendo uma paragem nos miradouros existentes.
      Cpts.

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