tapada das necessidades.

vitímas da peste negra. gilles li muisit. bibliothèque royale albert I.

em 1580 lisboa foi assolada por uma devastadora peste que durou mais de 20 anos. como consequência, grande número de pessoas procurou o campo em busca de melhores ares que lhes permitissem resistir a este mal. na ericeira, um casal em fuga da peste rezava amiúde numa ermida onde se encontrava uma imagem de nossa senhora da saúde e, como conseguiram escapar à morte, atribuíram esta graça às preces feitas à dita. quando regressaram a lisboa fizeram questão de trazer consigo a imagem, procurando abrigá-la de forma digna, para tal construindo, em 1606, uma ermida no alto de alcântara. rapidamente o local se tornou de culto, onde nobreza e povo iam orar e pedir que fossem atendidos os seus pedidos e “necessidades”.

vista da tapada das necessidades e rio tejo.

em 1742, d. joão V mandou construir um convento e palácio real, tornando-se residência oficial, tendo sido alvo de sucessivos melhoramentos pelos monarcas que se seguiram. no reinado de d. maria II (1819-1852) e sob a égide de d. fernando fez-se a escola de horticultura, orientada pelo mestre francês jean bonnard, criando-se ao longo de todo o séc. XIX um local único e especial com lagos e jardins, bem como alguns belos e singulares edíficios que observei neste percurso. com 10 ha de área é um dos jardins fechados mais atraentes de lisboa, onde nos abstraímos da vida da cidade, num misto exótico e romântico de diversidade botânica, um espaço verde cuja jardinagem e horticultura remontam a sucessivas gerações de príncipes de portugal, que o desenvolveram até à sua maturidade final.

transpostos os portões de acesso à tapada começo por explorar o seu perímetro. tomo a alameda pavimentada pelo lado esquerdo e desde logo começa uma subida que se prolonga por umas boas centenas de metros. atingido o ponto mais alto da tapada aparece, do lado direito, um dos mais emblemáticos edíficios do local, a arrojada estufa circular. mandada construir em 1856 por d. pedro V, filho de d. fernando II, que tinha por hábito educar os filhos para a natureza, esta espectacular estrutura em ferro forjado e vidro servia para colocar um extenso acervo de plantas das mais variadas origens. um pouco mais acima está a casa do regalo, um bonito exemplo de arquitectura romântica mandada construir pelo rei d. carlos em 1889, que serviu nos seus tempos de esplendor como atelier de desenho e pintura da rainha d.amélia, acolhendo hoje o gabinete do ex-presidente da república jorge sampaio. continuando até ao extremo norte da tapada passo pelo moinho e mãe de água, após o que começo a descer de regresso ao ponto inicial, contornando pelo exterior a mata mediterrânica e o jardim dos cactos, considerado, noutros tempos, um dos mais bonitos da europa. a parte final do percurso decorre pelas traseiras do convento e do palácio das necessidades e termina percorridos 1,4 km.

na segunda incursão pela tapada das necessidades parti à descoberta dos caminhos interiores. o ponto de partida é o mesmo e, logo de início, aparece uma vasta clareira com um agradável relvado, estando o seu topo coroado por um jardim estratificado. segue-se uma bonita panorâmica da alameda dos lodãos, que integra um dos ex-libris da tapada, o jardim zoológico, uma zona com jaulas reservada a aves e outros animais que pertenciam aos príncipes. ao longo do percurso tenho outra perspectiva dos edíficios por onde passei anteriormente, onde a excepção é a casa do fresco, uma peculiar construção onde eram guardadas sementes e plantas, refrigeradas naturalmente pela estrutura de pedra e por um lago que existe no topo do edifício. 1,8 km depois está explorado o interior da tapada.

como tem acontecido noutros espaços anteriormente visitados, também a tapada das necessidades necessita de uma profunda intervenção que ponha fim ao progressivo processo de degradação que se regista, não obstante os esforços desenvolvidos pela associação grupo dos amigos da tapada. porém, face à difícil situação económica que vivemos temo que esse dia esteja longe, muito longe…

entretanto, apesar das “feridas”, é imprescindível conhecer a tapada das necessidades. um espaço a estimar e preservar na “mui nobre e sempre leal cidade de lisboa”.

características do percurso – piso: misto; perímetro: 1,4 km; retorno: opcional (circular); água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2; coordenadas gps do ponto inicial: n38º 42.428′, w9º 10.279′. altimetria do perímetro: gráfico abaixo.


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One comment

  1. Parabéns pelo artigo sobre a Tapada das Necessidades, que também utilizo para caminhar e treinar (quando o estou a fazer). O meu lamento também pela degradação do que já foi um dos mais belos espaços verdes da cidade! Ao longo dos anos já passou por vários ministérios e agora é da responsabilidade da Câmara de Lisboa. Já passou por ser um espaço vedado aos lisboetas, depois semi fechado, exigindo-se um cartão de utente (antes do 25 de Abril) (cartão que ainda possuo, por ser habitante de uma das freguesias limítrofes) e finalmente, por acção do Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades, espaço aberto, mas ainda longe do roteiro dos visitantes da nossa cidade, como mereceria.

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