Os miradouros do Tejo. Parte 1.

Ilustração de Eduardo Salavisa.

Lisboa teve no Tejo o seu berço, rodeado de fábulas e mistérios. O grande estuário é, ainda hoje, crucial no dia a dia da cidade nas vertentes económica e social, dado que o rio e os seus afluentes alimentam, dão de beber e proporcionam energia aos habitantes da capital. A segunda incursão pelos miradouros de Lisboa levou-me à parte sudoeste da cidade, em que os locais visitados têm como característica comum as soberbas vistas sobre o rio e o seu estuário, daí a designação de miradouros do Tejo. É um percurso muito diversificado no qual visitei algumas das jóias arquitectónicas da capital, comprovando uma vez mais o muito que a “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa” tem para oferecer a quem a visita. Mas o rio não é só o que se vê, as suas águas escondem muitos mistérios e intrigas, glória e tragédias, vitórias e derrotas. Conheça alguns desses momentos da história.

Começo este percurso no local onde terminei o anterior. Para trás fica o jardim 9 de abril e sigo em direcção à Av. Infante Santo que me conduz até à primeira paragem, a bela Basílica e Convento do Sagrado Coração de Jesus, construção em estilo neoclássico com ecos de barroco no seu interior.

Em 1760, D. Maria, então princesa herdeira, fez um voto no dia do seu casamento, prometendo fundar um convento de religiosas no caso de vir a ter um filho varão, o que veio a acontecer com o nascimento de D. José, a 21 de Agosto de 1761. Este, porém, faleceu vitimado pela varíola em 1788, onze anos antes da conclusão da obra que só aconteceu em 1799. É na cúpula da Basílica que se situa o miradouro do Zimbório da Basílica da Estrela queapesar de possuir dois níveis (terraço e varandim), por questões de segurança só se acede ao primeiro, mediante o pagamento de 4,00€ e subindo 114 íngremes degraus, recompensados com uma bela vista sobre a cidade e o rio, assim descrita por Fernando Pessoa no guia turístico do final da década de 1920, Lisboa: o que o turista deve ver: ” da varanda que coroa o zimbório pode-se ver quase toda a parte moderna de Lisboa, assim como também o rio na sua parte mais larga e muitas das importantes aldeias da margem sul.”

Luís de Montalvor e Fernando Pessoa.

A 2 de março de 1947, Luís de Montalvor, amigo e editor de Fernando Pessoa, afogou-se no rio quando o carro em que seguia atravessou a linha do comboio em direcção à zona da estação fluvial e, sem reduzir a velocidade, se precipitou no Tejo. Várias pessoas viram o automóvel deslizar pela rampa abaixo, entrar na água e submergir lentamente durante três minutos, até desaparecer de vez no lodo. O poeta não morreu sózinho, a mulher e o filho afogaram-se com ele. Horas mais tarde, os bombeiros resgataram o carro com os três corpos presos no interior. Acidente ou suícidio? Até hoje ninguém conseguiu explicar o que aconteceu naquele fatídico dia.

Da Estrela prossigo para a Calçada das Necessidades, a qual desço até ao jardim situado no largo fronteiro ao Palácio.

miradouro do Largo das Necessidades situa-se no jardim Olavo Bilac (1865-1918), um espaço de cariz aristocrático mandado construir por D. João V no ano de 1747, assim baptizado em homenagem a um dos mais populares escritores e poetas brasileiros, membro fundador da Academia de Letras do seu país. No que à vista diz respeito o Tejo mantem-se como principal protagonista, complementado com uma panorâmica da ponte e Alcântara.

Numa época em que os casamentos reais se faziam por conveniência e, maioritariamente, por procuração, o Tejo desempenhou um papel de anfitrião de gala na recepção das futuras rainhas, tendo sido o palco de solenes e festivas entradas de princesas em Lisboa. A primeira a chegar foi Maria Francisca Isabel de Sabóia, a 9 de agosto de 1666, para conhecer o seu marido, o rei D. Afonso VI. Problemas de infertilidade levaram o rei a abdicar do trono em favor do seu irmão, D. Pedro II, que acabaria por casar com a cunhada. Por morte da consorte, no dia 12 de agosto de 1687 entra no Tejo o barco trazendo Maria Sofia Isabel de Neuburgo, que viria a ser a rainha seguinte por via do casamento com D. Pedro II. Decorreram 21 anos até nova recepção no rio, desta vez para Maria Ana da Áustria, chegada a 27 de outubro de 1708 para reinar ao lado de D. João V.

O Tejo só tornou a vestir a casaca de gala para receber nova princesa volvidos 150 anos, no dia 17 de maio de 1858, aquando da recepção a Estefânia de Hohenzollern, a futura mulher de D. Pedro V, cujo matrimónio apenas durou 15 meses dado a jovem rainha ter morrido prematuramente. Quatro anos depois, a 6 de outubro de 1862, nova festa no rio para receber Maria Pia de Sabóia, que veio ao encontro de D. Luís I. Este ciclo de recepções terminou a 28 de outubro de 1951, quando a fragata Bartolomeu Dias trouxe de volta a casa o corpo de Maria Amélia Luísa Helena de Bourbon Orleães e Bragança, a última rainha de Portugal, falecida no exílio em França.

Sigo para oeste e cruzo o vale de Alcântara para chegar à terceira paragem deste percurso, uma curiosa estrutura poligonal com sete lados rectilíneos conhecida como capela do Alto de Santo Amaro.

Ilustração de Eduardo Salavisa.

Ilustração de Eduardo Salavisa.

O miradouro de Santo Amaro situa-se no átrio da capela com o mesmo nome, a qual, segundo os registos históricos, remonta ao ano de 1549, sendo atribuída aos tripulantes galegos de uma barca que aqui teria dado à costa, embora haja também quem a relacione à iniciativa de frades da Ordem de Cristo que, regressados de Roma, aqui teriam iniciado a sua ascese religiosa. Classificada como monumento nacional desde 1910, a capela de Santo Amaro é um dos grandes tesouros da capital. Na minha opinião este miradouro é a “maravilha escondida” deste percurso, dado as singulares panorâmicas que proporciona sobre a ponte 25 de abril e partes do porto de Lisboa.

Na madrugada de 8 de setembro de 1936, um grupo de marinheiros pertencentes à Organização Revolucionária da Armada, o braço do PCP dentro da Marinha e responsável pelo jornal clandestino “O Marinheiro Vermelho”, fez-se às águas do Tejo em direcção a três navios da Armada Portuguesa (Dão, Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias) ancorados no porto de Lisboa, numa tentativa de revolta que ficou conhecida pelo “Motim dos barcos do Tejo”. O objectivo desta acção era tomar os navios e sair da barra do rio para, a partir da relativa segurança do mar e longe dos canhões em terra, exigir a libertação dos seus colegas presos, reivindicar o fim da perseguição aos seus camaradas da Armada, bem como manifestar solidariedade com os republicanos espanhóis, em plena guerra civil. O motim estava condenado à partida dado o ministro da Marinha, comandante Ortins de Bettencourt, estar informado de cada movimento dos revoltosos e com pleno controlo da situação. A sublevação foi esmagada, 10 marinheiros perderam a vida e outros 60 tornaram-se os primeiros prisioneiros do infame campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.

Prisão dos revoltosos e no Tarrafal.

Mantendo o rumo desço para a Rua da Junqueira e, na mais longa ligação deste percurso dirijo-me para a zona da Ajuda, local onde se situam os dois próximos miradouros.

Subo a Calçada da Ajuda até chegar ao Jardim Botânico da Ajuda, uma pérola com quase 250 anos criada por decisão do Marquês de Pombal, com o Tejo como pano de fundo. Franqueado o portão de acesso mediante o pagamento de 2,00 €, deparo-me com uma área de 3,5 ha dividida em dois planos com um desnível de 7 m, onde existem 1.200 espécies botânicas, mas que antes das Invasões Francesas chegou a ter mais de 5 mil. O miradouro do Jardim Botânico da Ajuda situa-se no terraço superior, na balaustrada outrora ornamentada de vasos em faiança branca que, a azul, ostentavam a coroa e o monograma da rainha D. Maria Pia, dos quais apenas um se encontra exposto na entrada do edifício administrativo, tendo os restantes sido retirados e remetidos para peças de museu. Neste miradouro a vista sobre o Tejo é complementada com uma enorme sensação de tranquilidade.

As maiores catástrofes naturais na região de Lisboa passaram pelo Tejo. Dessas, três foram particularmente destrutivas: o medonho terramoto de 1755, acompanhado pelo descomunal maremoto que entrou pelo rio e arrastou para o mar as pobres almas que haviam procurado refúgio nas suas margens; o ciclone de 15 de fevereiro de 1941, que deixou um brutal rasto de destruição e dezenas de mortos nas águas do rio; e as cheias de 25 de novembro de 1967, provocadas por uma titânica tromba de água que se abateu sobre a região de Lisboa, a qual fez transbordar o Tejo e os seus afluentes, reclamando a vida de mais de 400 pessoas.

Retomo o percurso pelas Ruas Gonçalves Zarco e, logo de seguida, Tristão Vaz, bastando menos de 1 km para chegar ao Parque Urbano dos Moinhos de Santana.

O miradouro dos moinhos de Santana – moinho Velho e de Sant´Ana – integra o conjunto edificado em meados do sév. XVIII para as freiras Dominicanas Irlandesas do Convento do Bom Sucesso, numa época em que cerca de 100 moinhos produziam a farinha que abastecia a capital. Adquiridos pela C.M.L. em 1942, foram reconstruídos em meados da década de 1960, tendo o município, em 1997, aberto ao público uma moderna área de lazer e recreio de enquadramento aos únicos moinhos ainda em funcionamento na cidade. Foi denominado Parque Urbano dos Moinhos de Santana, mas também é conhecido por Parque dos Moinhos do Caramão da Ajuda. Da abrangente vista obtida do alto dos seus 122 m assistimos ao encontro do Tejo com o oceano Atlântico.

Fortes do Búgio e São Julião.

Os fortes de Santo António de Cascais, São Sebastião da Caparica e São Vicente de Belém constituiam o triângulo defensivo da Lisboa seiscentista. Porém, o enriquecimento continuo da cidade nas décadas seguintes tornou-a num alvo cada vez mais cobiçado por corsários, piratas e rivais da expansão marítima portuguesa, pelo que D. Manuel I mandou criar os projectos de ampliação de defesa do Tejo. Deles resultaram a construção dos fortes de São Julião da Barra (1568) e de São Lourenço do Búgio (1657), projectados para se complementarem um ao outro e constituirem a primeira linha de defesa do Tejo, cruzando fogo para defender a barra e a cidade de Lisboa. O poder dos bastiões era de tal modo impressionante que chegaram a vencer batalhas sem precisarem de disparar um único tiro – o inimigo acobardava-se.

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