Os miradouros do Tejo. Parte 2.

Ilustração de Eduardo Salavisa.

Atingido o ponto mais alto deste percurso é tempo de começar a descer em direcção ao rio. A próxima paragem leva-me à 9ª colina de Lisboa, ao encontro da antiga e enigmática Ermida de São Jerónimo.

No alto da colina e enquadrado paisagisticamente pelo jardim Ducla Soares, projectado pelo Arq. Gonçalo Ribeiro Telles em meados da década de 1950, o miradouro da Ermida de São Jerónimo é um local privilegiado de observação da barra do estuário do Tejo e de toda a área até ao farol do Búgio. Porém, o ex-libris do local é a Ermida de planta quadrangular, formas sóbrias e raro equilíbrio de volumes, construída em 1514 e restaurada em 1886, classificada como Monumento Nacional desde 1943. Em 1976 foi cedida, por empréstimo, à Igreja Ortodoxa Russa para o culto habitual de sábados e domingos, tendo sido devolvida ao Patriarcado em 1978, sendo, actualmente, um local muito procurado para a celebração de casamentos e baptizados.

A 15 de setembro de 1606, a nau Nossa Senhora dos Mártires, carregada com pimenta da Índia, desfez-se contra as rochas na barra do Tejo, provocando a morte de 200 pessoas por afogamento. Poucas horas após a tragédia, a população ribeirinha, miserável e desesperada, depressa se esqueceu dos mortos e acorreu à costa para recolher o valioso tesouro que cobria de negro as margens do rio.

Prossigo o percurso pela Av. da Torre de Belém, a qual proporciona um corredor visual com o magnífico monumento, guardião atento da barra de Lisboa e expoente máximo da epopeia marítima portuguesa. De denominação oficial Torre de São Vicente, foi erguida entre 1514 e 1520 por ordem do rei D. Manuel I, sendo Monumento Nacional desde 1910 e classificada pela Unesco em 1983 como Património Mundial.

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Não é comum a associação mas a Torre de Belém, referente arquitectónico do estilo Manuelino, também é um ponto de observação (acesso pago: 5,00€). O miradouro da Torre de Belém, quer estejamos no terraço do baluarte, ou na torre propriamente dita, projecta-nos para dentro do rio, dando a sensação de estarmos numa nau pronta a navegar para um qualquer destino longínquo. A vista de 360º proporciona uma bela panôramica dos monumentos de Belém, margem sul e farol do Búgio.

O Tejo foi a rampa de lançamento da aeronáutica em Portugal, mas a honra do primeiro voo em terrritório nacional não coube a um português. A primeira tentativa de voo aconteceu a 27 de outubro de 1909 no antigo hipódromo de Belém, quando o francês Armand Zipfel, aos comandos de um rudimentar aeroplano Voisin-Antoinette de 40 cv, voou quase duas centenas de metros e a oito de altura. O primeiro voo a sério foi realizado pelo também francês Julien Mamet, no dia 27 de abril de 1910, uma vez mais do hipódromo de Belém. De acordo com a descrição do Boletim do Aero Clube de Portugal, editado em 1911, “…depois de descrever um largo círculo a 50 metros de altura, no seu Blériot XI, sobrevoou a Casa Pia e passando sobre o Tejo, regressou ao ponto de partida, onde a multidão entusiasmada lhe dispensou uma calorosa ovação.”

A. Zipfel (1909) e J. Mamet (1910).

A. Zipfel (1909) e J. Mamet (1910).

Só passados três anos, a 10 de setembro de 1912, Portugal tem o seu herói dos ares. De seu nome Alberto Sanches de Castro, descolou e aterrou por 4 vezes o seu Voisin-Antoinette ou Blériot (subsiste a dúvida) de uma das ilhas alagadiças no meio do estuário do Tejo, o Mouchão da Póvoa, em curtos voos de algumas centenas de metros e a 5 metros de altitude. Foi também o Tejo que reclamou a primeira vítima de um acidente aéreo, no dia 11 de junho de 1913 na pessoa de D. Luiz de Noronha, ironicamente o primeiro português a obter oficialmente o brevet (nº 1178) de piloto aviador.

A.S. Castro e L. Noronha.

A.S. Castro e L. Noronha.

Em maio de 1919  o Tejo voltou a constar dos anais da aviação: nas suas águas terminou o primeiro voo transatlântico de sempre, um projecto idealizado e levado a cabo pela Marinha americana. A 27 de maio, o NC-4 Liberty tripulado por John Towers e Albert C. Reed amarou no rio em frente a Santa Apolónia, 19 dias após terem saído de Nova Iorque, conquistando assim o Atlântico Norte. Três anos depois, no dia 30 de março de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram de Belém a bordo do hidroavião “Lusitânia” rumo à primeira travessia aérea do Atlântico Sul, que completaram a 17 de junho quando amararam pela última vez o Fairey III-D 17 “Santa Cruz” em águas brasileiras frente à Ilha das Enxadas na baía de Guanabara, 8.383 km e três aviões depois.

NC-4 Liberty e Lusitânia.

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