Nos passos de Pessoa. Parte 1.

pessoa1

Decorria o ano de 1888. Pelas 15h20 do dia 13 de junho, no 4º andar esquerdo do nº 4 do Largo de S. Carlos, Joaquim de Seabra Pessoa e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira viam pela primeira vez o filho primogénito, longe de imaginarem que a criança nascida momentos antes se viria a tornar no maior vulto da poesia portuguesa.

Pessoa5

Largo de São Carlos e estátua de Jean-Michel Folon (2008).

É justamente à porta do local onde há 125 anos nasceu Fernando António Nogueira Pessoa que início mais um percurso pelas ruas da capital. Desta vez, parti à descoberta dos locais que marcaram a existência do poeta que se centrou em três eixos muito definidos compreendidos entre a Baixa/Chiado, os bairros orientais da Almirante Reis e, finalmente, Campo de Ourique, recuando a um tempo em que Lisboa era um misto de cidade e de aldeia.

Do local onde o poeta nasceu e viveu os primeiros cinco anos de vida nada resta senão a fachada, a qual ostenta uma placa que assinala o facto. Deixo o Largo de S. Carlos para trás e, um pouco adiante, estou na Rua Garrett frente à Igreja dos Mártires, local onde o poeta foi baptizado a 21 de julho, decorridos 48 dias após o seu nascimento.

“O sino da minha aldeia […] é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de S. Carlos…”

Com a morte do pai em 1893 começa um longo registo de locais onde o poeta habitou, dos quais visitei, por ordem cronológica, os mais significativos.

Sigo em direcção à Calçada do Combro e desço até à Trav. do Convento de Jesus para me dirigir ao segundo local que habitou, entre julho de 1893 e finais de 1895, o nº 104 da Rua de São Marçal. A mãe, recém viúva e com dificuldades financeiras, muda-se com os filhos para o modesto 3º andar nesta morada, onde viria a morrer o seu irmão Jorge, apenas com um ano de idade. Foi aqui que, aos 7 anos, escreveu a sua primeira quadra intitulada “À minha querida mamã”:

Pessoa6

1895 e 1898. Aos 7 e 10 anos de idade.

“Eis-me aqui em Portugal / Nas terras onde eu nasci / Por muito que goste d´ellas / Ainda gosto mais de ti.”

Em 1895 a mãe casou-se em segundas núpcias com João Miguel Rosa, cônsul português em Durban, pelo que, em janeiro de 1896 esse será o destino da família, do qual Pessoa regressou definitivamente em agosto de 1905, então com 17 anos. Durante os três anos seguintes habita, por períodos relativamente curtos, em 6 locais diferentes, até que, em meados de 1908, já jovem adulto, aluga um quarto no 1º andar esquerdo do nº 18 do Largo do Carmo, no qual se mantém até ao início de 1912. É aqui que faço nova paragem depois de ter percorrido as ruas D. Pedro V e S. Pedro de Alcântara.

cafés rossio

Cafés Gelo, Brasileira e Chave D’ Ouro.

Desço a Calçada do Carmo e dirijo-me ao Rossio em busca dos locais onde, nas primeiras décadas do século passado, existiam os cafés nos quais escreveu e divagou. Começo pelo actual nº 64, ainda o café Gelo, de seguida no nº 51 existia a Brasileira do Rossio e, no nº 36, o Chave D´Ouro. No local onde hoje está a Camisaria Moderna existiu, até 1970, o restaurante Os Irmãos Unidos, no qual Pessoa se reunia com outros vultos do meio artístico, entre eles Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Ferro, Luiz de Montalvor, entre outros. Ali esteve exposto, a partir de 1956, o célebre quadro de Almada Negreiros representando o poeta à mesa de um café.

Fernando Pessoa. Óleo sobre tela de Almada Negreiros. 1954.

Fernando Pessoa. Óleo sobre tela de Almada Negreiros. 1954.

Do Rossio continuo para os Restauradores e, no Largo D. João da Câmara, tento imaginar o café Suisso e o café Martinho, à época o maior, o mais rico, o mais barrocamente decorado dos cafés lisboetas, local de inúmeras reuniões do grupo da revista Orpheu. Hoje nada resta de remotamente parecido, tendo sido encerrado no final da década de 1960 e transformado numa vulgar agência bancária.

Cafés Suisso e Martinho.

Cafés Suisso e Martinho.

A paragem seguinte faz-me avançar até 1912 e à freguesia de Arroios, local onde viveu ao longo de quase três anos na companhia da sua tia Anica, abrindo assim o período em que a zona dos bairros orientais e a Av. Almirante Reis acompanharam os seus dias.

Continuo pela Avenida da Liberdade até à Rua Alexandre Herculano, subo pela Rua do Conde Redondo e percorro a Rua Joaquim Bonifácio até à esquina com a Rua Passos Manuel. Ali chegado procuro o nº 24, prédio onde viveu no 3º andar esquerdo na companhia da sua tia, entre 1912 e 1914. Percorro mais umas centenas de metros e estou na Rua Pascoal de Melo frente ao nº 119, para onde o poeta e a sua tia se mudaram ainda durante 1914, habitando uma vez mais um 3º andar, agora do lado direito, até à partida desta para a Suiça no ano seguinte. Entre finais de 1915 e 1918 viveu por curtos períodos em mais 6 locais nesta zona, a que se seguiram 2 anos em Benfica. Em 1920, com o regresso da mãe (viúva pela segunda vez) e irmãos a Portugal, Pessoa, então com 32 anos, acompanha-os na nova morada em Campo de Ourique, criando definitivamente raízes no bairro que o acolherá até ao fim dos seus dias.

Prossigo para a Av. Almirante Reis que, no início do século passado e até à revolução de 5 de outubro, dava pelo nome de Rainha D. Amélia e paro frente ao nº 117. Pessoa era frequentador regular da então muito popular fábrica de cerveja Germânia, que na actualidade conhecemos por cervejaria Portugália, nome com o qual foi rebaptizada no decurso da 1ª Grande Guerra. Avenida abaixo sigo até à Baixa Pombalina em busca dos locais mais significativos onde o poeta trabalhou.

pessoa1

alt pessoa1

(1/3)

Anúncios

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s