Nos passos de Pessoa. Parte 2.

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A segunda parte deste percurso levou-me aos locais onde Pessoa trabalhou, bem como a alguns que frequentou e que ainda hoje guardam testemunho dessa época.

Viveu em inúmeros locais na cidade e trabalhou em mais de 20 firmas, curiosamente quase todas situadas na Baixa. O facto de dominar as línguas inglesa e francesa deu-lhe a possibilidade de trabalhar como tradutor e correspondente, tendo, com algumas dessas firmas, estabelecido uma colaboração mais duradoura, fazendo com que ficassem ligadas a episódios marcantes da sua vida e da sua obra.

Começo pela Rua da Assunção onde, no 2º andar do nº 58, entre 1920 e 1923 existiu a editora Olisipo, projecto dirigido conjuntamente com o seu primo Mário Nogueira de Freitas. De seguida passo pelo nº 42 onde, igualmente no 2º andar, trabalhou na Félix, Valladas & Freitas, Lda, na qual conheceu, em finais de 1919, Ophelia Queiroz, a primeira e única mulher que povoou a sua vida sentimental. Segue-se o nº 44 da Rua dos Fanqueiros, 1º andar, sede da Palhares, Almeida & Silva, Lda, onde escreveu parte do Livro do Desassossego. Na Rua dos Douradores paro frente ao nº 190, o restaurante Antiga Casa Pessoa (estabelecimento fundado no séc. XIX cujo nome nada teve a ver com o poeta ou a sua família), no qual almoçava habitualmente.

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Ophelia Queiroz, cartas e em flagrante delitro.

“Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores.”

Num largo constituído pelo cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a de São Nicolau, a poucos metros da esquina com a Rua dos Douradores, ficava o posto da Vale do Rio, de Abel Pereira da Fonseca, onde foi tirada a célebre fotografia a beber um copo de vinho e na qual escreveu, com humor, uma dedicatória a Ophelia: em flagrante delitro. Ali situou o seu Livro do Desassossego, uma das mais belas obras da literatura portuguesa do século XX, qual viagem “a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos”.

Prossigo para a Rua da Prata em busca do 1º andar dos números 59 e 71, onde trabalhou nas firmas Lima Mayer & Cia, na década de 1910, e na Moitinho de Almeida & Cia de 1923 a 1935, onde, amiúde, permanecia noite fora para dactilografar parte dos textos que compõem a obra acima mencionada.

Conhecidos os locais mais afastados dos roteiros turísticos dedicados ao poeta, chegou a hora de rumar aos mais mediáticos. A próxima paragem é no Terreiro do Paço, local do ícone pessoano e autêntico mausoléu que dá pelo nome de Martinho da Arcada.

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Antes, na Praça D. João da Câmara, já tivera a oportunidade de conhecer o local do Café Martinho, agora estou no Martinho da Arcada. Entre 1845 e 1899 pertenceram ambos a Martinho Bartolomeu Rodrigues, daí o denominador comum no nome, tendo o segundo recebido a designação popular «Martinho da Arcada» para o distinguir do outro «Café Martinho», onde aconteceram as tertúlias da primeira grande fase produtiva de Pessoa, a da revista Orpheu. No actual, uma das mais célebres casas pessoanas, tornado ex-libris turístico e destino de romarias, o poeta vinha já nos últimos anos de vida, recebia companheiros de tertúlia e jantava com o pessoal e proprietários, antes de seguir no eléctrico 28 para Campo de Ourique. Em sua homenagem existe uma mesa permanentemente reservada e conta-se que terá tomado ali um último café com Almada Negreiros três dias antes de falecer.

Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. … Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me … em vidas, realidades, tudo. Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira”. Em “Tudo é absurdo”.

Agora sigo a linha do eléctrico 28 para me dirigir às últimas paragens deste percurso. Regresso ao Chiado e à Rua Garrett, onde no nº 120 se situa outro ex-libris pessoano, o café A Brasileira.

19 de novembro de 1905. Adriano Telles, um português que fizera fortuna no Brasil, trazia uma novidade para o coração do Chiado, a venda do “genuíno café do Brasil”. O café não fazia parte da cultura lisboeta, sendo uma bebida pouco apreciada e até evitada pela população, pelo que, inicialmente, Telles servia o café aos clientes para que o provassem, sem que nada lhes fosse cobrado, de maneira a criar o gosto por aquela bebida aromática e amarga, que estava distante de ser servida em chávenas, de ser extraída de máquinas ou possuir um aspecto cremoso. Reza a lenda que teria inventado o termo “bica“, para designar uma chávena de café servida de uma cafeteira. Telles teria ordenado a um empregado que trouxesse a bebida servida em chávena a partir da bica do saco poroso utilizado para coar o café. Mito ou realidade, a palavra “bica” passou a fazer parte do vocabulário lisboeta, no qual permaneceu até hoje.

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A Brasileira em 1911 e escultura de Lagoa Henriques inaugurada a 13 junho de 1988.

Em 1908 realizaram-se obras da autoria do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior e sofre uma completa transformação, para se adaptar a uma sala de café com todos os modernos requisitos de comodidade e de elegância, destinada às pessoas que não quisessem aproveitar da distribuição gratuita de chávenas de café. A Brasileira cativou assim um público que tinha a ver com as elites intelectuais e artísticas, um misto de academia e de assembleia popular, tornando-se, nos anos 20 do século passado, no centro onde se reuniam as tertúlias lisboetas, destacando-se o grupo do Orpheu que teve ali o seu ponto nevrálgico.

Deixo o bulício do Chiado para trás e retomo o trajecto do 28 ao longo das Calçadas do Combro e da Estrela. Sigo pela direita para a Rua da Estrela, que subo na totalidade, e viro à esquerda para a Rua Coelho da Rocha onde me detenho frente ao nº 16.

A Rua Coelho da Rocha e o bairro de Campo de Ourique acolheram o poeta em 28 de março de 1920, aquando da mudança deste e da sua família (a mãe – uma vez mais viúva – e os irmãos recém chegados da África do Sul), para o 1º andar direito do nº16. Homem de cafés e capaz de criar em qualquer sítio, foi, mesmo assim, no sossego desta rua e na solidão deste primeiro andar (a mãe morreu em 1925, os dois meios-irmãos foram para Inglaterra, a meia-irmã Henriqueta Madalena casara e repartia-se pela sua casa de São João do Estoril) onde viveu década e meia, que escreveu parte significativa da sua obra.

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