O primeiro a contar do fim.

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Já andava com esta ideia na cabeça há algum tempo. Como será ser o último participante a cortar a meta numa prova? Ficar em último? Normalmente participamos com o objectivo oposto, ou seja, quanto mais à frente melhor. Mas desta vez fui mesmo para ficar em último, ver o meu nome a encerrar a lista de classificados e, ao mesmo tempo, partilhar a experiência de uma prova vista da traseira do pelotão. Aqui fica o relato da experiência vivida neste domingo, curiosamente também o último deste inverno.

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A sede do ISCPSI e o painel da prova.

O primeiro passo desta experiência foi seleccionar a prova adequada que teria de preencher os seguintes requisitos: distância de 10 km, cronometrada e com listagem de classificações.Também não poderia ser uma prova com milhares de participantes senão nunca mais me despachava. Assim sendo optei pela prova da APAV/ISCPSI, um evento que reunia todas as condições requeridas e com um percurso fácil e convidativo.

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A partida.

Com a partida agendada para as 10h30, cheguei ao local 20´antes de forma a tomar o pulso à situação. Fui cumprimentando alguns amigos habituais (sem fazer grande alarde com o objectivo da minha participação) e, entretanto, fui posicionar-me bem no fim do pelotão de participantes, tentando perceber quais iriam ser os meus companheiros de circunstância, tarefa na qual tive algum sucesso… Tiro de partida! Deixei o pelotão por-se em movimento e comecei a correr mesmo no limite, já não havia mais ninguém para começar a prova. Atrás de mim só os batedores, a ambulância e o autocarro “vassoura”.

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Os primeiros metros em último. Todos à frente, ninguém atrás.

Ainda o 1º km não estava concluído e já estavam identificadas as minhas “lebres”, os atletas Fernando F. e Vera S., que desde logo seguiam certinhos na casa dos 10 min/km, um ritmo muito conveniente para a experiência a que me propunha. Do km 1 ao 3 fui fazendo a conversa de circunstância com os meus novos companheiros de corrida, tentando abstrair-me de que ia quase a passo relativamente ao ritmo a que estou habituado. Feitas as apresentações e mais conversa com outros corredores da cauda do pelotão atingimos o abastecimento ao km 5 e constato que estava tudo normal, água em quantidade e os voluntários no seu posto, que nos receberam com um sorriso no rosto e desejos de uma boa prova.

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Tantas vezes esquecidos mas absolutamente fundamentais para que as provas decorram com segurança.

Aumentei um pouco o ritmo e fui mais à frente para conhecer outros participantes do pelotão, saber quais as suas motivações e há quanto tempo participam em provas. É extraordinária a quantidade de histórias inspiradoras que tive oportunidade de ficar a conhecer, constatar que nesta zona tão esquecida das provas também estão atletas com sonhos e aspirações, superando barreiras e vencendo preconceitos. Aqui corre-se com garra e determinação, não com velocidade!

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Os companheiros de jornada.

Atingido o km 7 foi hora de reagrupar com a cauda do pelotão, o que fiz esperando uns minutos frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Tempo para mais conversa, desta vez com participantes que já tinham concluído a prova. Decorridos uns 10 minutos eis que chegam os meus companheiros para o final de prova, devidamente escoltados pela PSP, bombeiros e autocarro da organização.

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O reagrupamento para os 3 km finais.

Retomei a corrida juntando-me ao grupo, agora reduzido a 3 participantes – eu, o Fernando e a Vera. Só nesta altura lhes contei o objectivo da minha participação (causou-lhes alguma estranheza) e em troca fiquei a saber um pouco mais da história de cada um. Começo pelas senhoras. A Vera S. corre pelo Portugal Running e já tem historial de participação em várias provas. Recém saída de um problema cardíaco está no processo de regresso às provas “…mas com muita calma pois os conselhos do médico são para seguir. E é para chegar ao fim!” Não tive qualquer dúvida de que sim, tal a determinação com que aquelas palavras foram ditas.

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A Vera já lá vai.

Já a história do sr Fernando tocou-me particularmente. Logo no início tinha reparado nele, um personagem deslocado no meio daquele pelotão colorido, vestido num misto de corredor e futebolista, sapatilhas que prometiam massacrar aqueles pés durante os próximos 10 km. Meti conversa com ele, tendo-me apercebido de imediato que ali havia uma história que merecia ser contada, não apenas pelo contraste, mas também pelo fundo humano que encerrava. O que é que leva um homem de 61 anos, operário na fábrica de rebuçados “Águia”, alguém para quem os dias da vida são vividos sobrevivendo, que nunca tinha corrido e muito menos participado numa prova, a meter-se à estrada para fazer 10 km?

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Eu e o Fernando a caminho da meta.

A resposta foi desconcertante e dita já com a meta à vista: “para experimentar, queria saber como é. Já vi os outros a correr e queria correr também.” Assim, tão simples quanto isto.

“E pensa fazer outra?” perguntei.

“Não, se calhar não consigo.” Percebi que não era por falta de vontade…

Antes, após o último retorno e entrada no km final, partilhou uma das duas garrafas que trazia consigo e perguntou-me: “posso parar para beber água?”

“Beba à vontade, mas não vamos parar, depois custa mais a recomeçar. Já falta pouco.” disse eu.

“Pois, falta pouco… se calhar também já não vou ter sede.” 

“Se calhar já não…” retorqui, “está aqui está de medalha ao peito”.

“Vão dar-me uma medalha?”

“Costumam dar, quando cortarmos a meta logo vemos.” Aquela seria o derradeiro testemunho de que tinha conseguido, poderia mostrá-la com orgulho, amanhã quando partilhar a história da sua estreia numa prova.

Entretanto a Vera S. num derradeiro sprint final cortou a meta à nossa frente, seguida pelo Fernando e finalmente eu! Também consegui o meu objectivo, fui o último participante a cortar a meta.

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Missão cumprida.

Infelizmente não houve medalhas e os fotografos já se tinham ido embora, mas os organizadores ainda lá estavam à nossa espera para nos felicitarem.

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O pódio invertido.

O último também é o primeiro…  mesmo que seja a contar do fim!

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7 comments

  1. Muitas se esquecem dos últimos e da tremenda força de vontade que muitos dos que correm nesses lugares têm.
    Eu já corri alguma coisa, já andei lá pelo primeiro terço do pelotão mas também já cheguei nalgumas provas em último e sei o que as vezes se tem de treinar mesmo para chegar nessa posição!
    Foi uma excelente ideia esta de dar voz e visibilidade aos últimos do pelotão. Parabéns!

  2. Excelente relato Paulo , no fim do pelotão luta-se e sofre-se muito , este teu tocou-me bastante.

    Um grande abraço.

  3. Gostei da perspectiva diferente da corrida. Foi interessante saber os motivos que levam as pessoas (menos preparadas ou aptas fisicamente) a correrem. Eu também participei numa corrida este fim de semana e fui último! Não foi propositadamente mas fui último, a corrida era de 6km e como estou habituado a provas maiores nem tive hipóteses! Mas foi muito engraçado ser o último, gostei da experiência.

  4. Muito boa experiência! Também já andei na cauda do pelotão e pode-se dizer que é outro “mundo”. Apenas se pensa chegar ao fim e o espirito de solidariedade está sempre presente!

    1. Caros Jorge, Sílvio, Pedro e Zé Pedro,
      Ontem foi de facto um dia para ver a corrida numa perspectiva diferente. Fazemos parte do pelotão e corremos com motivações diferentes, mas a verdade é que com os últimos são muitas vezes encarados como um transtorno, aquela malta que nunca mais se despacha e que atrasa a organização a desmontar a “tralha” do evento. Como não partilho nada dessa visão pretendi mostrar o outro lado da prova, bem como o respeito que é devido pelos organizadores a todos aqueles que participam numa dada corrida. O dever de quem organiza é receber o último com a mesma dignidade e respeito dispensada ao primeiro. O resto é negócio! Mas ontem a organização esteve bem.

  5. Este relato é de facto muito interessante e mais interessante foi, porque fiz parte dele, já que consto numa das fotos!! Sou novata nestas “correrias” e o objectivo desta foi mostrar que é possível superar os nossos limites e a prova foi superada. Obrigada Paulo, pois ajudou-me na demonstração!!

    1. Na cauda do pelotão corre-se por convicção, desistir foi uma palavra que não ouvi uma única vez.
      A persistência é uma característica dos fortes.
      Obrigado eu pela simpatia e por terem partilhado as vossas histórias.

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