Ciclovias de Lx. De Belém ao Terreiro do Paço.

Nota introdutória: Algumas das ciclovias que irei percorrer enquanto ciclista já as conheço devido a ter corrido nelas. No entanto, sempre que o fiz, respeitei os direitos dos seus principais utilizadores, os ciclistas, caso contrário estaria em contradição com aquilo que defendo: as ciclovias destinam-se, prioritariamente, aos utilizadores de bicicletas. Porém, também existem algumas partilhadas que estão devidamente sinalizadas, às quais darei a devida atenção. Proponho-me igualmente cumprir não só as regras de trânsito, mas também as de utilização destas vias, de forma a ser coerente no exercício do elogio ou da crítica, quando for caso disso.

km ciclovia belém 1

Explorar as ciclovias da cidade passou a fazer parte do meu programa regular de treinos. O primeiro passo foi pesquisar a rede existente e, de seguida, munido da informação relevante, percorrê-la. Por vários motivos tem sido uma experiência muito interessante, reveladora da (tantas vezes conflituosa) relação entre entre ciclistas, peões e automobilistas. Comecei pela ciclovia mais movimentada da cidade, os 7 km que ligam a Torre de Belém ao Cais do Sodré (pontos 21 a 22 do mapa abaixo) e o recente acrescento na av. Ribeira das Naus. Fiz este percurso em duas ocasiões distintas (3ª feira e domingo), para poder comparar o tipo de utilização que esta ciclovia possuí. Eis o que presenciei.

ciclovias lx

Ciclovias de Lisboa. Janeiro 2013.

Começo pela 3ª feira. Iniciei o percurso na Torre de Belém, desde logo com o cuidado necessário para evitar algum contacto com os inúmeros peões que atravessam ou caminham pela ciclovia, em busca das atrações turísticas existentes ao longo deste primeiro km, nomeadamente até ao Padrão dos Descobrimentos. Neste troço é inevitável a convivência entre peões e ciclistas, nada que não fosse expectável face às características do local, pelo que a prudência é a atitude correcta a adoptar.

ciclovia belém d

Seguem-se 3 km sem grandes problemas, com o caminho (razoávelmente) desimpedido, primeiro até à estação fluvial, e depois até à doca de Santo Amaro. Entre estes dois locais passo pela Belém Bike, pioneiros no aluguer, venda e reparação de bicicletas neste percurso.

ciclovia belém e

Ao chegar à doca reparo que a sinalização horizontal e vertical aconselha/obriga a desmontar durante a travessia da zona dos restaurantes, pelo que foi com a bike pela mão que atravessei o local, com uma paragem pelo meio para visitar a slowfast cycles.

ciclovia belém f

Inaugurada em 28 de agosto de 2012, esta é uma das mais recentes e inovadora loja/hotel/atelier de bicicletas na capital, vocacionada para o conceito de bicicletas urbanas, mas onde todos aqueles que gostam de pedalar são bem-vindos e rapidamente se identificam com o local. O espaço prima pela simplicidade e pelo bom gosto, onde nada parece estar deslocado ou em excesso, criando um ambiente que nada tem a ver com a tradicional loja de bicicletas. Para breve está agendada a abertura de uma cafetaria no 1º andar, onde se poderá fazer uma pausa para tomar uma bebida ou comer um snack ligeiro enquanto passamos os olhos por uma das várias publicações dedicadas às bikes, ou desfrutamos da espectacular vista sobre a ponte e margem sul. Aprovada!

ciclovia belém b

Prossegui para a gare marítima de Alcântara, onde fiz a segunda paragem desta vez para conhecer o fun track, um espaço criado em 19 de junho de 2010 e onde se pode alugar todo o tipo de material para pedalar ou patinar, tomar uma bebida ou aceder a serviços oficinais. Continuei pela rocha do Conde de Óbidos e, já no último km desta ciclovia, percorri o cais do gás onde, entre a portugália e o clube naval, existe outra zona de travessia com a bicicleta pela mão.

ciclovia belém a

Os últimos metros são feitos frente ao terminal fluvial do Cais do Sodré, o ponto final (ou inicial) desta ciclovia até há algumas semanas atrás e onde durante 50 m também há que levar a bike pela mão!

ciclovia belém c

No dia 23 de março foi inaugurado o troço que liga o Cais do Sodré ao Terreiro do Paço pela Ribeira das Naus, parte do projecto de requalificação da frente ribeirinha que decorre há quase uma década. Este novo troço tem 800 metros e, sem tecer considerações sobre questões de estética ou de arquitectura, constata-se que foi mal concebido no respeitante ao que uma ciclovia deve ser. A escolha de um pavimento em paralelípipedo foi uma solução desajustada relativamente ao tipo de piso recomendado para estas vias, levando-me a questionar se quem a projectou alguma vez andou de bicicleta? No entanto é de assinalar a abertura deste troço que permite a ligação ininterrupta destes dois (muito) movimentados locais da cidade, apesar das obras ainda não estarem completamente terminadas.

ciclovia cs b

alt ciclovia cs b

Quanto à utilização ao domingo… bem… a não ser que se opte pela manhã muito cedo ou bem ao final da tarde… pedalar nesta ciclovia na sua totalidade é… um exercício que exige calma e uma boa dose de paciência. Peões a caminharem em grupo e a formarem uma barreira (quase) intransponível, crianças em inocentes brincadeiras enquanto os pais apreciam as vistas, ciclistas a mostrarem a suas habilidades de ases do pedal, pessoas a passearam os cães com trelas compridas… vê-se de tudo! Apesar do espaço circundante ser mais do que muito, a tentação dos peões utilizarem aquela superfície plana e sem buracos é, aparentemente, irresistível. Quanto aos ciclistas notei que a sinalização existente nos três locais acima mencionados não tem qualquer significado para 99,9% dos mesmos (percorrer aqueles 480 m de bicicleta na mão fizeram sentir-me um “tótó”), mas constatei que existe espírito de solidariedade entre a malta do pedal pois perguntaram-me se tinha alguma avaria ou se precisava de ajuda.

Para concluir penso que seria altura de a C.M.L. rever, nomeadamente entre a Torre de Belém e o Café In, a sinalização que regula a utilização, bem como as marcações que delimitam a ciclovia, de forma a minimizar as situações de conflito entre peões e ciclistas que se verificam com frequência (com culpas de ambas as partes).

No entanto e apesar destes constrangimentos, esta é, sem margem para dúvidas, a mais cénica e movimentada ciclovia da capital. Vale a pena percorre-la, mas ao domingo digo apenas que há tantos outros bons locais para pedalar.

assinatura bike

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6 comments

  1. Costuma ser o meu local de treino desde ha um ano. Costumo utilizar uma parte da ciclovia para correr, mas coloco-me de forma a minimizar a minha presença nesta via. Na parte da doca nunca vi um ciclista a passar essa zona com bicicleta na mão. Passam a grandes velocidades inclusivé! Acho muito bem a atitude que teve em passar essa zona com a bicicleta na mão. Grande artigo! As suas propostas são cultura associada ao bem estar físico! Continue com o bom trabalho! E tem lido livros, que possa partilhar conhecimento?

    1. o projecto das ciclovias está a revelar-se muito interessante (por bons e maus motivos), que irei dando conta ao longo dos próximos tempos. quanto às leituras sobre corridas o último foi “keep on running: the highs and lows of a marathon addict” de phil hewitt (em inglês pois a edição de livros sobre corrida em português é o que se sabe). um livro escrito por um tipo normal que gosta de correr maratonas, em que nos revemos em muitas das situações descritas. divertido e de leitura fácil.

  2. Antes de mais, gostaria de deixar uma palavra de elogio ao autor destas cronicas, pela forma como expoe as suas “experiências vividas através da prática desportiva”, e como isso pode ser util e servir de motivação ao mais pequeno atleta de fim de semana ou qualquer entusiasta por estes tipos de desporto.
    Desejo portanto que continue a gozar de todo o bem estar necessário para poder partilhar connosco as suas experiencias, criticando sempre que possivel o que pode e deve ser melhorado.

    Quanto à minha experiencia enquanto ciclista, sou daqueles que sempre procurou fugir dos grandes centros, preferindo as regioes mais rurais ou de montanha para a minha pratica de cicloturismo, tendo já percorrido grande parte das serras do Norte e Centro do País.

    Mas nesta fase da minha vida, com filhos pequenos e a viver em Lisboa, e com uma ciclovia quase à porta de casa, pensei que seria uma boa ideia lançar-me com os miudos por esta aventura em Lisboa…
    Para o nosso passeio inaugural, escolhi o circuito que descreve entre Belem e o Terreiro do Paço porque, apesar de ser o mais movimentado, seria o mais plano para circular calmamente com crianças, e ao mesmo tempo sensibilizalos para a importancia de conviver com os restantes utentes destas vias.

    Infelizmente, o que durante cerca de 20 anos me levou a evitar pedalar em cidade, aconteceu 800m depois de começarmos o nosso passeio de Sabado de manhã.
    Acontece que fui abalroado por outro ciclista que segundo outras pessoas testemunharam circulava a uma velocidade “talvez criminosa” entre peões, ciclistas e todo o tipo de obstaculos à sua passagem.
    O resultado, para alem de crianças apavoradas com o triste espectaculo que acabavam de presenciar, foi uma ida forçada ao hospital e 7 pontos numa perna, e obviamente um fim-de-semana estragado. Quanto à bicicleta, o prejuizo material fica por uma roda empenada e o selim rasgado.

    Olhando à minha volta, dou graças a Deus que este artista de tronco nu e boné de pála de lado tenha chocado comigo e não com um dos meus filhos ou outra criança que tambem por ali andavam a passear a pé.
    Este é o triste espectaculo e exemplo negativo que esta especie de artista deixa dos restantes ciclistas. Valeu-me a ajuda solidária de outros ciclistas para me recompor, aguardar a assistencia do INEM, etc.

    Não vou desistir de transmitir o gosto pelas 2 rodas aos meus filhos, mas esta má experiencia e tantas outras histórias que se tem ouvido, leva-me a repensar se realmente faz sentido abrir este tipo de espaços a todo o tipo de pessoas, antes de apostar fortemente em formação civica da população em geral.

    Muitos criticam o formato e traçado das ciclovias ou vias partilhadas, mas de nada serve continuar essa discussão enquanto não se mudar mentalidades. O maior problema para todos os problemas é o civismo das pessoas, ou melhor, a grande falta de respeito e o enorme egoismo que a maioria das pessoas transpõe da sua vida quotidiana para a utilização destas vias.

    Não quero com a minha experiencia negativa manchar o excelente trabalho do autor destas cronicas, a quem mando um forte abraço e desejo que alcance todos os seus objectivos, mas… enfim, fica mais uma historia…

    Cumprimentos,
    Rui Coelho

    1. Caro Rui,
      antes de mais votos de uma rápida recuperação da triste experiência pela qual passou, cujo relato é suficientemente esclarecedor. Civismo, ou antes, a falta dele, é um problema recorrente na nossa sociedade e revela o que há de pior em nós enquanto povo. Infelizmente vamos encontrando esses “espécimes” um pouco por todo o lado, umas vezes montados em bicicletas, outras com o volante de uma mota ou carro nas mãos. A ciclovia Belém – Cais do Sodré é, frequente e infelizmente, local de conflitos não só entre peões e ciclistas, mas também e ironicamente, entre ciclistas. Quanto aos peões já vi de tudo, mas mesmo tudo. Entre os ciclistas as situações mais recorrentes são o excesso de velocidade, razias e a circulação aos pares. Claro que ao fim de semana é tudo bastante mais complicado, dada a enorme afluência de pessoas ao local. No entanto continuo a acreditar que está em curso uma alteração de mentalidades, que são cada vez mais aqueles que usufruem destes locais de uma maneira civilizada, respeitando as regras que se impõem na fruição dos espaços públicos. Entre a “comunidade do pedal” constato que a grande maioria é solidária e dá um exemplo positivo da prática desta actividade/modalidade. Apesar do infortúnio, persista. Lisboa é uma cidade com muito para desfrutar e hoje podemos ir a locais interessantes e menos conhecidos num agradável passeio de bicicleta, cortesia da rede de ciclovias que se vai desenvolvendo. Boas pedaladas.

    1. Não abordei essa questão mas, de uma maneira geral, as ciclovias de Lisboa decorrem do estudo/projecto “Rede de Percursos e Corredores na Cidade” de finais da década de 1990 e que visou proporcionar a interligação entre os vários pólos residenciais, de serviços e zonas verdes de recreio e lazer. Desde essa data até à actualidade a rede tem vindo a desenvolver-se de uma maneira aleatória que, não sendo a ideal, em muitos locais será a possível e sem implicar um grande investimento. No entanto, nos arquivos da CML encontrará documentos que o poderão esclarecer melhor.
      Cumprimentos.

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