Do Passeio Público aos jardins Românticos. Parte 1.

passeio publico5

O terramoto de 1755 modificou completamente a cidade de Lisboa. A destruição que provocou fez com que a cidade tivesse de ser reconstruída e, a partir de um emaranhado de ruas estreitas e sinuosas, sem qualquer planeamento urbanístico, surge uma cidade planeada, com ruas largas e direitas, inspirando-se nos modelos que surgem do Iluminismo.

Em 1764, no seguimento da reconstrução Pombalina de Lisboa, Reinaldo Manuel dos Santos, então arquitecto da cidade, desenha o Passeio Público, um longo recinto ajardinado numa zona de terras húmidas e alagadiças, que foram elevadas pelos entulhos do terramoto. O espaço permitiu o recreio e encontro de pessoas e contribuiu para o ordenamento, o embelezamento e o saneamento do espaço público, no qual a plantação de árvores teve papel importante. Os primeiros freixos foram oferta de Jacomo Ratton, que os mandou vir da sua quinta de Barroca d’Alva, tendo também sido feito o aproveitamento dos riachos que por ali passavam.

passeio publico1

Litografias coloridas do Passeio Público. George Vivian ( Esq.).

Esses terrenos incluíam as Hortas da Mancebia e da Cera bem como os pertencentes ao Conde de Castelo Melhor que foram expropriados, ocupando a área limitada a norte pela linha traçada pelas ruas da Alegria e das Pretas, e a sul por onde é hoje a Praça dos Restauradores. Pela sua extremidade setentrional passava a Rua do Salitre, sendo que, para norte, ainda se sucediam as hortas até ao Vale do Pereiro. Assim, nas confrontações de hoje, o Passeio Público principiava junto ao primeiro portão do Palácio Foz e acabava no quarteirão que é limitado pela Rua da Alegria à esquerda, e a das Pretas à direita.

Traçado num esquema bastante simples, com uma alameda de 300 por 90 metros, teve como influência espaços semelhantes que haviam sido construídos em grandes cidade europeias, um sítio onde pudesse haver um contacto com a natureza, e que, ao mesmo tempo, resolvesse alguns problemas de salubridade da cidade. Embora denominado de “Público”, o Passeio estava rodeado por muros e o acesso era feito através de uma porta de madeira, posteriormente substituída por um gradeamento, podendo ser frequentado por todas as classes sociais. Porém, de acordo com várias fontes da época, nas primeiras décadas não se impôs como um espaço de socialização dos lisboetas, devido a três factores: a falta de vontade de interacção entre classes, a ausência de hábitos de lazer entre as classes mais desfavorecidas e a fraca qualidade estética e de integração paisagística do mesmo.

No início do século XIX o Passeio Público não tem ainda grande frequência como escreve o sacerdote sueco Carl Israel Ruders (1761-1837): ” (…) O jardim é grande, bonito e asseado mas no velho gosto francês (…) Apesar disso não me parece que os portugueses gostem tanto de passear como os estrangeiros (…) aos domingos ainda lá aparecem algumas mulheres das classes médias, mas senhoras de sociedade jamais. O costume de fechar o jardim ao toque das avé-marias também me parece em contradição flagrante com o fim a que ele se destina.» Viagem em Portugal, 1798-1802.

passeio publico3

Litografias diversas do Passeio Público.

É, contudo, na Lisboa Romântica de D. Maria II e de D. Fernando II, que o Passeio Público ganha nova vida e, a partir das décadas de 20 e 30 do século XIX, dão-se várias alterações do espaço, tanto por iniciativa régia, como por iniciativa camarária. A grande renovação, entre 1834 e 1838, esteve a cabo de Malaquias Ferreira Leal que introduziu um novo arranjo de jardins e fontes, com um grande lago, quedas de água e estátuas alegóricas, duas das quais, representando o rio Tejo e o rio Douro, ainda hoje se encontram na Avenida da Liberdade. Os melhoramentos traduziram-se também num aumento de 30 m no comprimento e de 20 m na largura, bem como o derrube de algumas árvores copadas que deram lugar a outras de menor porte e a arbustos, trazendo uma manifesta redução da área de sombras. Os altos muros pombalinos foram substituídos por muros baixos encimados por gradeamentos em toda a volta, completado por portões de ferro forjado com guarnecimentos de bronze. As barracas existentes nas imediações foram derrubadas e foi construída a entrada do lado sul. Essa entrada, ladeada pela casa do guarda e pela casa do porteiro, era constituída por 3 portas de ferro, sendo a do centro mais larga, e entre elas viam-se duas coroas de louro douradas com o dístico “4 de Abril de 1838”, data em que foram inauguradas para coincidir com o aniversário de Rainha D. Maria II, que 2 anos antes havia confiado ao Município de Lisboa a administração do espaço.

Passeio Publico carta topografica de 1856

Passeio Público. Carta topográfica de 1856.

O Passeio Público ficou dividido em 4 quadras, tendo o lago ao centro, com alto pedestal ostentando uma bacia de pedra inteiriça, no meio da qual se erigia uma pinha de onde provinha um repuxo. Às faces do pedestal, acostavam-se as estátuas de tritões e sereias (hoje no pátio do Palácio Pimenta – Museu da Cidade). Entrava-se depois no bosque onde estavam as estátuas alegóricas aos rios Tejo e Douro, dividido em 13 longitudinais e 32 transversais, sendo o intervalo entre árvores ocupado com bancadas de buxo e louro. Neste percurso havia ainda mais quatro pequenos lagos circulares, dois à entrada e dois à saída, guarnecidos de pirâmides e paredes de buxo.

passeio publico2

Fotografias da entrada principal, alameda e terraço da cascata do Passeio Público. 1898.

As várias obras que foram feitas surtiram efeito no público na 2ª metade do século XIX, tornando-se num local de afluência em massa dos lisboetas, e tanto assim era que cantavam: “Fui ao Passeio ver o repuxo; Fiquei admirado de ver tanto luxo.” Eça de Queirós chegou mesmo a retratar o jardim em O Primo Basílio: “Logo ao pé do tanque encontraram Basílio. […] Na água escura e suja as luzes do gás torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam imóveis, no ar parado, com tons de um verde lívido e artificial.”

Era um vasto salão ao ar-livre, onde as pessoas iam para ver e para serem vistas, e foi ali que em agosto de 1851 se realizaram as primeiras iluminações a gás, tendo-se registado a visita de 15.612 pessoas em 3 noites, fazendo-se pagar a entrada para assistir ao espectáculo. Oferecia-se uma ampla variedade de divertimentos, ouvia-se música e realizavam-se festas, lançavam-se fogos de artifício e organizavam-se inúmeros eventos de caridade. Ao domingo, a zona do coreto (situado desde 1932 no jardim da Estrela) enchia-se quando tocava a famosa banda dos marinheiros. Os concertos nocturnos também eram bastante frequentados e, em 1879, ficaram célebres os concertos sinfónicos regidos por Madame Josephine Amann. Na zona mais a norte ficava o barracão que acolhia o circo Price inaugurado em 1860. O Passeio Público assumiu assim a dupla funcionalidade de lugar de recreio e espaço de representatividade social: salão de convívio elegante e, simultaneamente, palco selectivo do teatro urbano.

passeio publico4

Foto da cascata e fonte de José Bárcia (1879), litografia do Passeio Público (1905) e desenho do circo Price, estúdio Mário Novaes.

Em 28 de novembro de 1877 foi calculado por Ressano Garcia em 84 contos de reis o orçamento total para a demolição das portas e do gradeamento do Passeio Público, tendo-se tomado a decisão de demolir as grades. Nos finais do século XIX a sua popularidade decaiu bastante, não satisfazendo os lisboetas que estavam fartos daquela rotina de divertimentos repetitivos, tornando-se numa espécie de ponto abrigado e refúgio amoroso aos soldados e às amas de leite, que eram as suas mais assíduas frequentadoras.

(1/3)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s