Do Passeio Público aos jardins Românticos. Parte 3.

romantismo

Alfredo Keil, Guerra Junqueiro, França Borges e António Nobre.

Vencida a subida da Rua do Salitre e percorrida a Av. Pedro Álvares Cabral, chego à entrada do segundo jardim Romântico deste percurso, o jardim da Estrela.

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Lagos e estatuária do jardim.

Designação popular do jardim Guerra Junqueiro, tem uma dimensão de 4,6 ha e foi inaugurado em 3 de abril de 1852. Fundado por António Bernardo da Costa Cabral, contou com o apoio da rainha D. Maria II e a orientação do francês Jean Baptiste Bonnard, à época mestre-jardineiro de vários jardins de Lisboa. A sua criação resulta do facto de, a partir do terramoto de 1755, a zona da Estrela ter atraído muitas famílias da burguesia que pretendiam um jardim perto da nova basílica, como alternativa às tradicionais matas que despontavam pelos subúrbios da cidade. Durante a segunda metade do séc. XIX o jardim da Estrela era uma das grandes atrações lisboetas, contando com quiosques, estufas e até a réplica de um exótico pavilhão chinês, entretanto desaparecidos. Também albergou um leão, oferecido em 1871 pelo explorador Paiva Raposo e que ganhou o epíteto de “Leão da Estrela”, tendo sido instalado num pavilhão junto à entrada da Av. Pedro Álvares Cabral.

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Coreto proveniente do Passeio Público.

Na actualidade este jardim conta com quatro lagos distintos, uma pequena coleção de estatuária, um coreto antigo de ferro forjado (vindo do Passeio Público), uma biblioteca pública, dois parques infantis, um café-restaurante e uma pequena esplanada. As suas árvores, algumas com 150 anos de vida e de pose imponente, incluem gingkos, carvalhos-roble, cedros-dos-Himalaias, belas-sombras, araucárias-de-Cook, palmeiras-das-Canárias, figueiras-da-Austrália e alfarrobeiras, proporcionam uma grande tonalidade de verdes. Pelo lado voltado para a basílica passa o famoso elétrico 28.

Explorado o perímetro e os caminhos interiores do jardim, bem como os pontos de interesse, prossigo descendo as ruas de S. Bernardo, Sto Amaro e S. Bento. Chegado à R. Nova da Piedade subo até ao jardim Fialho de Almeida (ou da Praça das Flores), um pequeno segredo escondido na cidade que convida a uma pausa refrescante. Continuo subindo a R. de S. Marçal até à R. da Escola Politécnica, pela qual chego ao oficialmente designado jardim França Borges, mas por todos conhecido como jardim do Príncipe Real.

Em 1830 era um local de entulho que a Câmara mandou limpar para ali colocar uma praça. Em 1853 construiu-se um jardim com características românticas que, em 1859, recebeu a designação de Praça do Príncipe Real. Entre 1861 e 1863 foi construído o Reservatório de Água da Patriarcal (em formato octogonal com 31 pilares de 9,25 m de altura e uma capacidade de 880 m3 e que hoje faz parte do Museu da Água da EPAL) que, para além de abastecer o jardim fazia a ligação com os chafarizes do Século, Loreto e S. Pedro de Alcântara.

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Reservatório da Patriarcal.

Em 1869 promoveu-se à iluminação e ajardinamento do local segundo o gosto romântico inglês, com canteiros de recorte simétrico contendo plantas e flores multicolores e pequenos arbustos, organizados à volta do lago octogonal com repuxo. Foi ainda conhecido por Largo D. Pedro V e Praça Rio de Janeiro, tendo recebido a designação oficial de jardim França Borges em 1925, quando ali foi colocado o monumento em homenagem ao jornalista e fervoroso lutador pela implantação da República.

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Busto de França Borges, cipreste e lago do Reservatório.

Neste jardim encontra-se uma das mais famosas e esbeltas árvores de Lisboa, um cedro-do-Buçaco, exemplo magnífico da arte de jardinagem e a primeira da história da cidade a ser classificada de interesse público. Possui uma copa com 24 m de diâmetro, sustida por uma estrutura de ferro que oferece sombra e odores de cipreste. Encontram-se também tílias dos Balcãs, um cedro-dos-Himalaias, magnólias da América do Norte, uma paineira-barriguda do Brasil e figueiras tropicais da Austrália, que tornam este recanto da cidade de apenas 1,2 ha num autêntico pequeno jardim do mundo.

Explorado o local e após um breve período de descanso à sombra do seu ex-libris, é tempo de rumar à última paragem deste percurso, onde chego após percorrer a R. D. Pedro V.

“Que bom fresco aqui! Tinham entrado em S. Pedro de Alcântara; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.”  Eça de Queiroz – O primo Basílio.

O nome oficial do jardim e miradouro de São Pedro de Alcântara é jardim António Nobre, homenageando o escritor ultra-romântico do séc. XIX. O início da sua construção remonta a 1830 e é contíguo ao topo superior do elevador da Glória, oferecendo uma vista panorâmica sobre a Av. da Liberdade, a Graça, o Castelo de São Jorge, a Sé Catedral e toda a baixa Pombalina, com o rio Tejo como pano de fundo. Junto à balaustrada encontra-se um leitor panorâmico (um mapa da cidade em azulejos da autoria de Fred Kradolferb), que ajuda a identificar estes vários pontos. Este jardim assenta sobre uma muralha construída em meados do séc. XVIII e está dividido em dois patamares ligados por uma escada.

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Jardins do patamar inferior e fonte.

É ainda composto por um lago e uma estátua de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Foi requalificado em 2008 e, em cada um dos seus patamares, existe um quiosque-esplanada com serviço de cafetaria, bem como bancos de madeira que convidam a uma pausa. No patamar superior encontram-se árvores autóctones de Portugal, como o freixo colocado junto ao lago e, no inferior, canteiros adornados por roseiras e bustos de figuras portuguesas e da mitologia greco-romana.

Por último desço a Calçada da Glória de regresso ao ponto de partida, concluindo assim este percurso pela “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa” da segunda metade do séc. XIX.

Características do percurso – piso: duro (alcatrão e calçada); distância: 6,4 km; retorno: sim (circular); água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 3,5; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 42.585′, w9º 08.319′; altimetria: gráfico abaixo.

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