Os miradouros de Almada. Parte 1.

 

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“A ponte é uma passagem, p´rá outra margem…, Desafio pairando sobre o rio, a ponte é uma miragem…”

Foi relembrando o tema “Ribeira“, tocado pelos Jáfumega na década de 1980, que fiz a travessia em busca das vistas que a cidade de Almada proporciona sobre o rio e a margem norte. E, ao invés de uma miragem, tenho a dizer que me deparei com uma (muito) agradável surpresa.

Cais de Cacilhas. Este foi o local eleito para o início deste percurso, após ter cruzado o Tejo num dos velhinhos cacilheiros que há décadas sulcam as suas águas. Sempre à beira-rio sigo pelo medieval Cais do Ginjal, local que no passado teve grande importância no tecido económico local. A sua situação geográfica favorável propiciou que, por volta de 1816, ali se tenham instalado armazéns, oficinas e fábricas, nomeadamente de tanoaria, têxteis, cortiça, construção naval, destilaria e conservas, do qual hoje restam apenas as memórias nas muito degradadas fachadas.

ginjal

No entanto o ambiente marítimo mantém-se vivo no local, por via do movimento das embarcações que sulcam as águas do rio e dos pescadores que povoam as suas margens. Percorrido 1 km chego ao Passeio do Ginjal, local dos antigos estaleiros do Olho-de-boi, agora tornado num bonito espaço de lazer que integra o Jardim do Rio e a Fonte da Pipa.

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Esta aprazível zona ribeirinha foi totalmente reabilitada, por iniciativa da Câmara Municipal, no âmbito de um Programa de Reabilitação Urbana (1995-99), integrando a recuperação da Fonte da Pipa, a construção do Elevador da Boca do Vento, a consolidação da escarpa fóssil e a recuperação do passeio ribeirinho do Ginjal. Este lugar oferece agora uma aprazível área ajardinada e arborizada, importante como lugar de estadia e contemplação em contacto directo com o rio.

Miradouros de Almada2

Enquadrada por uma pequena praia, o início da sua construção remonta a 1726 e foi concluída em 1736, supervisionada pelo mestre pedreiro Luís da Silva. Porém, foi no reinado de D. João V que se fizeram as principais obras na Fonte da Pipa, que incluíram os acessos à vila de Almada e, o ex-libris do local, a Fonte Monumental de 4 Bicas, encimada pelo Brasão Real. Este monumento forneceu, durante os séculos XVIII e XIX, água de qualidade à então vila de Almada, tendo sido igualmente um importante ponto de abastecimento para os navios que aí acostavam antes de partirem em direcção ao oceano Atlântico. Neste local podemos igualmente visitar o Núcleo Naval do Museu Municipal, situado nas antigas instalações da extinta Companhia Portuguesa de Pescas.

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Apreciado o local e as vistas sigo pelo gancho do lado esquerdo, subindo a estrada da Boca do Vento a caminho da zona alta da cidade. Em alternativa podemos optar pelo elevador panorâmico (0,50 €), incorporado na bonita estrutura em betão da autoria do escultor José Aurélio, que faz a ligação entre o Tejo e Almada Velha, vencendo um desnível de 50 m.

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Chegado ao topo estou no Largo da Boca do Vento, assim chamado devido à fenda da arriba que deixa entrar o vento norte, predominante nesta zona, pelas ruelas de Almada. É aqui que se situa o miradouro Luís de Queiroz, o primeiro deste percurso, também conhecido como Miradouro da Boca do Vento, um local debruçado sobre o Tejo e que permite fruir de vistas encantadoras sobre Lisboa e a zona ribeirinha.

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Apreciadas as vistas rumo à Casa da Cerca subindo pela calçada homónima, reminiscência toponímica da antiga cerca do castelo e que guarda no seu corrimão o excerto do Foral concedido, em 1190, pelo Rei D. Sancho à vila de Almada.

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Situada no centro histórico de Almada, é um miradouro privilegiado sobre o rio e Lisboa, o segundo deste percurso. Inserido no Palácio da Cerca, considerado o maior e mais característico exemplar da arquitectura civil setecentista da cidade, remonta aos séculos XVII e XVIII, com influências Barrocas e Românticas. Foi restaurado no final do século passado, sendo na actualidade um centro de exposições dedicado à Arte Contemporânea (acesso pago: 1€).

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Após uma pausa para desfrutar das magníficas vistas e da tranquilidade que o bonito jardim que integra o local proporciona, prossigo pela Rua da Cerca e depois pela Rua Leonel Duarte Ferreira onde, frente à piscina municipal, podemos observar o imponente mural dedicado a Romeu Correia.

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Continuo pelas escolas e, um pouco adiante, pela Igreja do Seminário Maior de São Paulo, já com o Cristo Rei à vista. Na Rua de Fernão Lourenço, frente ao nº 89, sigo pelas escadas por debaixo do prédio à direita, entrando na Rua Melvin Jones. Viro sucessivamente à esquerda e à direita junto ao infantário e subo então pela Av. do Cristo Rei até ao Santuário, o terceiro miradouro do percurso, situado no alto do monumento ao Cristo Rei, erguido num monte sobranceiro ao rio Tejo e com mais de 100 metros de altura (o acesso custa 4€).

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A sua construção deveu-se ao cumprimento da promessa dos bispos portugueses feita em Fátima, no dia 20 abril de 1940, no final do seu Retiro anual, e que assim rezava: ”se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a Humanidade.”

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Portugal manteve uma posição de (relativa) neutralidade na 2ª Guerra Mundial, não participando directamente nas acções bélicas, tendo esse facto sido decisivo para que a Igreja colocasse em marcha uma campanha nacional de angariação de fundos na totalidade das suas paróquias. No entanto, devido ao contexto económico que se vivia, a mesma decorreu lentamente mas, apesar de todas as dificuldades, em 1941 procedeu-se à aquisição do terreno para a construção do monumento. Em 18 de janeiro de 1946, cerca de um ano após o conflito mundial ter terminado, durante a Pastoral Colectiva o Episcopado português declarou formalmente ter feito a promessa de erguer o Monumento a Cristo Rei tendo, a partir daí, intensificado activamente a campanha de angariação de fundos. A 18 de dezembro é solenemente lançada a 1ª pedra do monumento e em 1948 iniciam-se os trabalhos das fundações.

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Em 1952 começa a construção dos alicerces e do pedestal, um projecto da autoria do arquitecto António Lino e do engenheiro Francisco de Mello e Castro. O pedestal tem 82 m de altura e é constituído por quatro pilares em forma de arco, que representam os quatro pontos cardeais, albergando no seu interior a capela de Nossa Senhora da Paz. Nele seria erguida a imagem em betão armado, com 28 m de altura e um peso total de 40.000 toneladas, esculpida à mão por mestre Francisco Franco após ter sido modelada utilizando moldes em gesso.

figura

A 17 de maio de 1959, no dia de Pentecostes, perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, com a participação de todo o Episcopado Português, os Cardeais do Rio de Janeiro e de Lourenço Marques, autoridades civis e 300 mil pessoas a assistir, procedeu-se à inauguração do monumento.

inauguração

Nas palavras do sempre omnipresente Cardeal Cerejeira “este será sempre um sinal de gratidão nacional pelo dom da paz“.  (e do atraso a que o país esteve submetido durante a vigência do antigo regime, com o beneplácito da cúpula eclesiástica).

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