parque eduardo VII. 1.

No início do século XIX aquela que é hoje uma das mais nobres zonas de Lisboa – toda a área que vai desde a R. de Artilharia 1 até ao Marquês de Pombal, incluindo o Parque Eduardo VII, o bairro de São Sebastião da Pedreira e os terrenos onde se viria a instalar a Fundação Gulbenkian – formava uma só quinta que pertencia à família Eugénio de Almeida.

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José Maria Eugénio de Almeida

Era uma vasta área com mais de 370 mil hectares, maioritariamente plantados com oliveiras, no centro da qual, onde hoje existe a Estufa Fria, era cultivada uma pequena horta. Por determinação testamentária de José Maria Eugénio de Almeida (1811-1872), à época uma das personalidades mais abastadas do país, a par da relevante intervenção pública que protagonizou como Deputado, Par do Reino, Conselheiro de Estado e Provedor da Casa Pia de Lisboa, ficou lavrado que o terreno onde hoje o parque está inserido passasse a ser propriedade da C.M.L., na condição de que este fosse de usufruto público.

Em 1882, passada uma década do desaparecimento de Eugénio de Almeida, a construção de um grande parque no topo da Av. da Liberdade foi objecto de grande debate e deu origem a vários projectos, os quais visavam colmatar o vazio deixado pelo desaparecimento do Passeio Público. O mais duradouro e estruturado dentre eles deu pelo nome de Parque da Liberdade, tendo adquirido o nome de Parque Eduardo VII em 1903, por ocasião da visita do rei de Inglaterra a Lisboa, como corolário de um confronto diplomático em que Portugal teve que se submeter ao poderio político do Reino Unido.

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Planta do parque da Liberdade, “Mapa cor-de-rosa” e busto de Eduardo VII.

O ano de 1890 e o reinado de D. Carlos ainda davam os primeiros passos quando, a 11 de Janeiro, o Reino Unido apresentou um Ultimato que intimava o país, então movido pelo seu desejo expansionista materializado no “Mapa cor-de-rosa”, a desocupar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, caso contrário seria declarada a guerra entre os dois reinos. Face à desigualdade de meios entre as duas nações quase beligerantes, não restou a Portugal outra solução senão ceder às exigências da maior potência da época, situação que causou considerável abalo nas relações diplomáticas entre as partes litigantes.

Em 1901 ocorre a morte da Rainha Vitória, tendo D. Carlos representado Portugal nas exéquias da defunta monarca, um passo fundamental no desanuviar da tensão entre os dois reinos outrora aliados. Em 1903, Eduardo VII de Inglaterra, filho primogénito da Rainha Vitória (e primo de D. Carlos) faz, a Portugal, a sua primeira visita ao estrangeiro como monarca, reafirmando assim a aliança entre os dois países e restabelecendo, em definitivo, a normalidade diplomática.

O Parque Eduardo VII tal como o conhecemos hoje, implantado numa área de 26 ha, foi projectado em 1945 por Keil do Amaral.

keil 1945

Projecto de Keil do Amaral e área de implantação nas décadas de 1930 e 1940.

Desenvolve-se num plano desnivelado, recuperando a ideia de miradouro a Norte que oferece uma panorâmica sem obstáculos com o rio: ao centro a Av. da Liberdade e a Baixa Pombalina, à esquerda o Castelo de S. Jorge e à direita as ruínas do Convento do Carmo, tendo sempre o Tejo como pano de fundo. Caracteriza-se ainda pela existência duma enorme alameda central relvada, preenchida por uma composição geométrica em sebes de buxo, flanqueada por um passeio em calçada portuguesa com uma largura de 100 m, dividindo-o em duas zonas frondosas, a ocidente e a oriente, densamente verdes e arborizadas.

vista aérea

Parque Eduardo VII na actualidade.

No topo Norte encontra-se balizado por dois conjuntos de duas colunas monumentais, enquanto que as suas entradas a Sul definem-se como longos planos horizontais, colocados de cada lado da Avenida, segundo o eixo definido pela placa da praça do Marquês de Pombal.

Como habitualmente na primeira incursão fui conhecer o seu perímetro e, na segunda, explorar os caminhos interiores de forma a conhecer as várias alternativas de percursos que o local oferece. Vamos conhecê-las?

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Lago e restaurante, roseiral e coreto com anfiteatro.

Começo o percurso no topo Norte junto à escultura “Evocação ao 25 de Abril de 1974″ de João Cutileiro, inaugurada em 25 de Abril de 1997. Poucos metros adiante acedo à parte oriental pela zona do restaurante e lago, conjunto desenhado por Keil do Amaral em 1948-49, a primeira de uma sequência de zonas de estadia que ainda preserva alguma da beleza do passado.

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Projecto original. Início da década de 1950.

Segue-se o roseiral, um espaço mais reservado que confina com um anfiteatro de pequenas dimensões, contíguo a um dos mais soberbos edifícios do princípio de século passado existentes na capital.

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“Evocação do 25 de Abril” de Lagoa Henriques, figura feminina com cavalo, Euclides Vaz, 1958, figura feminina com veado, Stella Albuquerque, 1953 e figura feminina sentada, Vasco Pereira da Conceição, 1954.

Pavilhão Português das Indústrias. Foi esta a designação inicial do edifício de planta quadrangular que traduz uma arquitectura eclética e de gosto revivalista, inspirado no decorativismo do barroco joanino.

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Pavilhão de Exposições. 1932 e actualidade.

Foi projectado pelos arquitectos Guilherme e Carlos Rebelo de Andrade e Alfredo Assunção Santos, e construído para a Grande Exposição Internacional do Rio de Janeiro de 1922, por altura das comemorações do 1º Centenário da Independência do Brasil. Em 1929 foi desmontado e trazido para Portugal, tendo sido reconstruído neste local sob a supervisão do arquitecto Jorge Segurado e denominado Palácio das Exposições e Festas.

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“A ala dos namorados”, “Sagres”, “Ourique” e “Cruzeiro do Sul”. Painéis em azulejo de Mestre Jorge Colaço, 1922. Fábrica de loiças de Sacavém.

A inauguração formal aconteceu a 3 de Outubro de 1932 com a Grande Exposição Industrial Portuguesa, tendo, em 1946, sido adaptado para receber o campeonato do Mundo de Hóquei em Patins que ali se disputou no ano seguinte, já com a denominação de Pavilhão dos Desportos. Assim permaneceu até 27 de Agosto de 1984, data em que foi rebaptizado para Pavilhão Carlos Lopes, homenageando o campeão da Maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

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“A arte” e “A ciência”, Raúl Xavier, 1935 e 1945.

Encontra-se fechado há quase década e meia e num lamentável estado de degradação, ostentando marcas profundas do vergonhoso abandono a que está sujeito o riquíssimo património histórico da cidade.

18 de fevereiro de 2017. No dia que assinalou o 70º aniversário do ex-atleta e campeão olímpico Carlos Lopes, 14 anos após ter sido encerrado por falta de condições de segurança, o magnífico pavilhão foi (finalmente) reinaugurado.

As profundas obras de reabilitação custaram oito milhões de euros e duraram cerca de um ano, e incluíram a recuperação dos painéis de azulejos e a preservação de variados elementos decorativos, bem como a modernização da sala principal, a criação de infraestruturas de apoio, o arranjo da envolvente e a criação de novos acessos. À semelhança do que aconteceu no passado, o espaço será usado para iniciativas culturais, comerciais, desportivas e outras, assegurando, por esta via, o ingresso de receitas adicionais para a sua manutenção.

Passado o pavilhão surge nova zona de estadia, desta feita composta por um pequeno lago circular e um local para merendar.

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Lago circular e área de merendas.

O equipamento apresenta, uma vez mais, um ar de abandono, estando a estatuária parcialmente coberta pelos gatafunhos desses anormais que, de spray na mão, tudo destroem.

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“Mãe e filho”, António Duarte e figura feminina, Vasco Pereira da Conceição, 1958.

A parte oriental do parque termina descendo por uma zona mais frondosa que conduz ao grande plano horizontal da entrada Sul, rematada pela placa da rotunda do Marquês de Pombal.

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