Por ares nunca dantes navegados. 1.

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A busca de novos trajectos que ajudem a quebrar a monotonia de km percorridos vezes sem conta pelos mesmos locais levam-me, frequentemente, a sítios onde me cruzo com testemunhos que, devidamente contextualizados, dão origem a percursos com interesse histórico. Foi o que aconteceu quando um destes dias descobri a casa onde nasceu Carlos Viegas Gago Coutinho, que em conjunto com Artur de Sacadura Freire Cabral, realizaram a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul. Não pretendo contar aqui a história exaustiva dessa travessia (apesar de ser o fio condutor deste percurso), mas sim partir à descoberta dos testemunhos que existem no património da cidade que evoquem tão destemido feito iniciado a 30 de Março de 1922. Vamos conhecê-los?

Em 1919, a visita oficial do Presidente do Brasil a Portugal proporcionou a oportunidade para o Comandante Sacadura Cabral apresentar ao Governo Português o seu projecto para a realização da primeira travessia aérea do Atlântico Sul. O primeiro centenário da independência do Brasil, em 1922, seria então o pretexto para a realização de tão ambiciosa viagem que, naquele ano, ligaria Lisboa ao Rio de Janeiro.

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Doca do Bom Sucesso, antigo Centro de Aviação Naval. Se aqui tivesse estado neste mesmo dia há 93 anos, por volta das 07h00, teria assistido ao início de uma das grandes aventuras aéreas do século passado. O guindaste de apoio que perdura neste local já teria ajudado nas operações necessárias à colocação nas águas do Tejo do hidroavião Lusitânia, um Fairey F III-D Mk2 com motor Rolls-Royce, especialmente concebido para a épica viagem por “ares nunca dantes navegados“.

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Aos comandos do monomotor bi-posto no qual se propunham ligar Lisboa ao Rio de Janeiro estava Sacadura Cabral, cabendo as tarefas de navegação a Gago Coutinho. Mas a viagem Lisboa-Rio de Janeiro era bastante mais ambiciosa que todos os anteriores vôos sobre o mar. Totalizava 4.350 milhas náuticas (8.056 quilómetros), em longas etapas voadas em grande parte durante a noite, sem outra referência que não as estrelas e por diferentes regimes de vento. Para possibilitar o vôo sobre grandes extensões de oceano e de noite, Gago Coutinho adapta o sextante para o uso em navegação aérea, dotando-o de um horizonte artificial.

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Nova viagem no tempo, desta vez até 17 de Junho de 1972. Passaram cinquenta anos e decorrem as celebrações relativas à conclusão da épica aventura aérea, feito celebrado com a inauguração, por iniciativa camarária, do Monumento Comemorativo da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul. Porém, o monumento não foi consensual, e cedo surgiram resistências e críticas a esta linguagem plástica marcadamente moderna e abstracta, tendo a C.M.L. cedido aos críticos e substituído, em 1991, a escultura original pela que existe actualmente no local para onde me dirijo de seguida.

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O jardim da Torre de Belém foi o local escolhido para a segunda versão do monumento, uma réplica em tamanho natural do hidroavião Santa Cruz. Inaugurado em 15 de Outubro de 1991, é composto por um elegante plinto arquitectónico de betão forrado de granito, sobre o qual assenta um hidroavião em aço inox, com as mesmas medidas do original, em cujo interior, sugerindo presença humana, estão modelados os bustos em bronze dos aviadores, executados de feição muito realista e em tamanho natural. A obra escultórica é da autoria do Mestre Domingos Soares Branco, enquanto que a obra arquitectónica pertence aos arqs. Eduardo Martins Bairrada e Leopoldo Soares Branco.

santa cruz museu

Daqui sigo para o Museu da Marinha, o local que acolhe e preserva parte importante do espólio existente relativo a este episódio da aviação nacional e mundial. Se no jardim da Torre de Belém encontramos a réplica do Santa Cruz em forma de monumento, no museu podemos ver o aparelho original e tomar consciência da fragilidade do conjunto. Também expostos estão vários artefactos da época, sendo o sextante utilizado por Gago Coutinho um dos mais importantes em termos históricos.

sextante

Da parca bagagem que acompanhou a intrépida dupla durante toda a travessia são de destacar um exemplar datado de 1670 de “Os Lusíadas“, para oferta ao então Presidente do Brasil mas que Gago Coutinho acabou por entregar ao Real Gabinete Português de Leitura e que ainda hoje se encontra no Rio de Janeiro, uma carta do Presidente António José de Almeida igualmente destinada a Epitácio da Silva Pessoa, e uma garrafa de vinho do Porto Adriano oferecida para “aquecer a alma nos momentos difíceis”, a qual se encontra exposta no museu da Casa Ramos Pinto em Gaia.

Prossigo pelas ruas de Belém em direcção ao nº 27 da Calçada da Ajuda, uma modesta casa de 1º andar onde, a 17 de Fevereiro de 1869, nasceu Gago Coutinho, e na qual viveu os dois primeiros anos de vida. Deixou a casa paterna aos 17 anos para ingressar na Escola Naval e posterior carreira na Marinha, ramo a que ficou ligado até 1939. Foi promovido ao posto de Almirante em 1958 por decisão da Assembleia Nacional, em reconhecimento dos elevados serviços prestados à Nação.

casa ajuda

Continuo por ruas e vielas tendo como próximo local de paragem o nº 164 da Rua da Esperança. Foi no 2º andar deste edifício que Gago Coutinho viveu durante décadas, mais propriamente até 18 de Fevereiro de 1959, data da sua morte com a provecta idade de 90 anos.

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No fim desta rua e já no largo fronteiro ao Chafariz da Esperança encontro o medalhão a Gago Coutinho, uma base de cimento armado em paralelepípedo no qual está colocado um medalhão em bronze com a efígie do Almirante, complementado por duas placas de mármore evocativas da travessia.

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O medalhão é da autoria do escultor Domingos Soares Branco e o conjunto foi inaugurado em 18 de Fevereiro de 1984, data que assinalou os 25 anos da morte do Almirante.

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Ao longo do trajecto entre Lisboa, Canárias, Cabo Verde, Fernando de Noronha e a costa brasileira, a Marinha destacou navios de forma a prestar assistência à expedição. A viagem tornou-se muito atribulada ao aproximar-se de terras de Vera Cruz, e seria muito atrasada quando o Lusitânia se perdeu na amaragem junto aos penedos S. Pedro e S. Paulo, tendo os dois aviadores sido salvos pelo cruzador NRP República.

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Este episódio foi relatado por Sacadura Cabral em entrevista ao jornalista Thomaz Ribeiro Colaço e publicada no jornal O Dia de 7 de Junho de 1922: “Quando, para amarar, corria já com o aparelho paralelamente à superfície do mar, uma onda mais alta levou-nos um flutuador; nem sentimos o choque. O avião continuou em linha de vôo por uns segundos no ar, e pousou. Como lhe faltava um dos flutuadores, mergulhou imediatamente de um lado, erguendo a cauda, mas tudo docemente, sem choques. Ao fim de meia hora de esforços baldados para o salvar, foi para o fundo como uma bala.”

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