Por ares nunca dantes navegados. Epílogo.

“A Câmara dos Deputados do Estado… exulta e cobre de aplausos o arrojo dos dois intrépidos portugueses que, no momento actual, cortando os ares nunca dantes devassados, bem mostram que descendem dos que sulcaram os mares nunca dantes navegados.”

O triunfo na travessia do Atlântico Sul não refreou a ambição de Sacadura Cabral. O seu novo projecto batia tudo o que tinha sido proposto até então: a volta ao mundo em avião, em sentido inverso à da viagem de Fernão de Magalhães. Isto numa altura em que ninguém tinha ainda atravessado o Oceano Pacífico (o que só viria a acontecer em 1928). Assim sendo, em 1923 começou a trabalhar para o seu projecto de reunir as condições que permitissem um inédito voo de circum-navegação. Com ofertas várias e com as subscrições abertas em Portugal e no Brasil, conseguiu reunir o dinheiro necessário para a compra de 5 aviões Fokker T.III W, modelo que escolheu para levar a cabo o ambicioso projecto. Em Junho de 1924 partiu para os Países-Baixos para assistir à recepção oficial dos aeroplanos, tendo regressado a Portugal um mês depois pilotando um desses aviões.

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Em Novembro do mesmo ano regressou à Holanda com outros pilotos para trazerem os aparelhos que faltavam. Porém, desta vez, a viagem de regresso entre Amesterdão e Lisboa, empreendida a 15 de Novembro de 1924, ficou assinalada por uma terrível tragédia. Num dia marcado por condições climatéricas muito adversas, Sacadura Cabral e o mecânico Pinto Correia perdem a vida quando o avião em que regressavam a solo pátrio se despenhou no Mar do Norte, por causas ainda hoje desconhecidas. Nos dias seguintes foram levadas a cabo intensas buscas no local para encontrar o avião desaparecido e resgatar os corpos, no entanto sem qualquer resultado assinalável, tendo apenas sido recuperados pequenos destroços.

A 15 de Dezembro, data em que são oficialmente dados como desaparecidos, o dia foi decretado de luto nacional e feriado oficial, escrevendo o jornal “A Capital” que “o desaparecimento de Sacadura Cabral e do seu bravo companheiro nas brumas do Passo de Calais, sem uma testemunha, quasi sem um vestígio, tem o sabor heroico de uma lenda de glória”. Os seus corpos ficaram eternamente sepultados no local, tendo alguém dito, de uma forma muito poética que “o mar foi a sua mortalha e o avião a sua tumba”.

A morte de Sacadura teve um impacto profundo em Gago Coutinho, do qual nunca recuperou totalmente, a ponto de ter deixado de frequentar alguns locais onde, amiúde, se encontrava com o companheiro de aventura. A travessia do Atlântico Sul trouxe enorme reconhecimento aos dois intrépidos heróis, tendo Gago Coutinho sido agraciado com as mais altas e prestigiadas condecorações do Estado Português, bem como sido distinguido por uma série de países que reconheceram no inédito feito um notável avanço técnico e científico. Permaneceu ligado à Marinha até 1939, tendo dedicado o resto da sua vida à produção de vasta obra de investigação científica, publicando significativa variedade de trabalhos geográficos e históricos, principalmente acerca das navegações portuguesas. Em 1958 e por decisão da Assembleia Nacional foi promovido ao posto de Almirante, distinção que foi contra a sua modesta maneira de ser, dado considerar-se, antes de mais e acima de tudo, geógrafo, mas também historiador, matemático, astrónomo e marinheiro.

Morreu em Lisboa, no Hospital da Marinha, a 18 de Fevereiro de 1959, um dia após completar 90 anos. Foi velado na Capela de São Roque do antigo Arsenal da Marinha, em cerimónia que não teve (por respeito à sua vontade expressa) grandes solenidades, as quais se impunham devido à sua categoria de herói nacional. O Governo Português declarou luto nacional e associou-se à manifestação fúnebre com uma larga representação, tendo o povo formado longas alas para ver pela última vez a passagem do armão que transportava o ataúde coberto com a bandeira nacional, no percurso que levaria à derradeira morada.

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Este homem humilde, que descendia de uma estirpe nobre caída na plebe, como gostava de lembrar, foi sepultado no cemitério da Ajuda sem qualquer sinal que o distinguisse do seu semelhante, constando na lápide do seu túmulo, para a qual ele próprio redigiu o epitáfio, três simples palavras: Gago Coutinho – geógrafo. Assim, sem mais…

O mais belo elogio a este homem simples encontrei-o nas palavras de Armando Cortesão: “Gago Coutinho quis o nome gravado na sua modesta campa rasa apenas com a designação de GEÓGRAFO. Mas os homens não morrem por completo enquanto a sua memória se perpetuar nas obras que nos deixaram. Além do que nos legou como geógrafo e como historiador dos descobrimentos de quatrocentos, o seu nome ficará para sempre na História como o homem de ciência que tornou possível e participou na heróica primeira travessia aérea do Atlântico-Sul. Os nomes dos santos, dos grandes sábios, dos grandes artistas, dos grandes pensadores, e dos heróis, que tantas vezes se confundem na mesma pessoa, pelo menos nalguns dos seus aspectos, ficam para sempre nos Anais da Humanidade. Gago Coutinho foi um homem bom, um sábio, e um herói, que já pertence à História como uma das grandes figuras da grei lusitana.”

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