a maratona de nova iorque. #11. a prova.

05h45. 1 de Novembro. A grande cidade vai despertando lentamente e pela janela vejo o céu cor de chumbo (nublado e sem chuva tal como desejava) no dia em que vou, finalmente, participar na maratona de Nova Iorque. Tomado o pequeno-almoço começo a jornada até ao terminal de Whitehall na ponta sul de Manhattan para, num dos barcos que cruzam as águas do rio Hudson pelo porto de Nova Iorque, chegar ao terminal de St. George em Staten Island e daí apanhar o autocarro até Fort Wadsworth, o primeiro destino do dia e local oficial de partida da maratona.

Aqui chegado deparo-me com uma enorme cidade da corrida onde dezenas de milhares de atletas aguardam pelo seu slot de partida para darem início à jornada de 42.195 m pelas ruas e avenidas dos cinco bairros da Big Apple. Apesar do gigantismo da operação tudo decorre de uma forma ordenada e eficiente, um dos cartões de visita da excelente capacidade organizativa do New Yor Road Runners, o clube responsável pela maratona desde a primeira edição no longínquo ano de 1970.

staten island

09h55. Abrem-se as zonas de contenção e uma massa humana de milhares de corredores de todas as nacionalidades dirige-se para as respectivas zonas de partida situadas no acesso aos dois tabuleiros da ponte Verrazano-Narrows. Vou para o corredor laranja do tabuleiro superior e aguardo pelo minha hora de partida.

10h10. Tempo de ouvir o Star Spangled Banner, o hino nacional americano, interpretado “a cappella” por Susanna Phillips, soprano da Metropolitan Opera e que também participou na prova.

10h15. Soou o tiro de canhão que lançou os participantes nesta tão ansiada jornada ao ritmo do eterno New York, New York de Mr Francis AlbertOl’ Blue Eyes” Sinatra.

10h19. Contrariamente ao que esperava, levei pouco menos de 4 minutos a iniciar a minha prova e não tive qualquer dificuldade em começar logo a correr, apesar da imensa mole humana que lotava por completo a ponte. Esta é bastante larga e permite desde logo um andamento regular sem necessidade de andar a ziguezaguear, pelo que fui tranquilamente apreciando a excelente vista sobre Manhattan que tinha do meu lado esquerdo. Atravessada a ponte começa a verdadeira festa com a entrada na 4th Ave em Bay Ridge no bairro de Brooklyn.

Uma enorme e barulhenta multidão nos dois lados da avenida incentivava os corredores, num ambiente de festa absolutamente indescritível, complementado por vários grupos musicais. Ainda só iam decorridos 3 km de prova e já tinha uma amostra daquilo que o público de Nova Iorque tinha para nos oferecer! Ia especialmente atento ao km 14 no qual, desde 1979, a banda musical da escola secundária Bishop Laughlin toca o tema”Gonna fly now” do filme Rocky, as vezes que forem necessárias até à passagem do último corredor em prova! Diz muito sobre a maneira como este evento é celebrado pelos habitantes locais. O segmento percorrido em Brooklyn corresponde, mais km menos km, à 1/2 maratona, no qual adoptei um ritmo conservador poupando-me para a segunda parte da prova a qual sabia ser bastante mais exigente. Assim sendo lá fui tranquilamente cumprindo os km da 4th, Lafayette, Bedford e Manhattan Ave até à ponte Pulaski, a qual marca simultaneamente a 1/2 maratona e o acesso ao bairro de Queens. Em termos de tempo o relógio marcava 2h00m04s, em linha com o objectivo estabelecido.

queens

12h20. À saída da ponte outro banho de multidão. Quase que apetece dizer que os diferentes bairros e ruas competem pelo título de multidão mais barulhenta e animada. Os 4 km em Queens são feitos num ápice, nem me apercebi do passar dos mesmos pois quando dei por mim estava no início do tabuleiro da ponte de Queensboro.

manhattan

De um momento para o outro… silêncio quase total! Sensação estranha aquela de só ouvir a passada dos corredores a ecoar ao longo dos 2 km desta ponte que faz a transição para Manhattan e sem acesso para o público. Por alguns minutos somos só nós e os nossos pensamentos. No fim do tabuleiro curva à esquerda e… uma gigantesca explosão de cor, gritos e música dá-nos as boas vindas a Manhattan e à 1st Ave. N-U-N-C-A tinha experienciado algo assim!

Na gíria este local é designado por Wall of Sound, derivado à intensidade dos décibeis que ali se registam. É impossível não sentir um arrepio no corpo tal é a sensação que provoca!

Apesar do incentivo refreei o entusiasmo, pois a verdadeira prova ainda não tinha começado. Os 6 km na 1st Ave são conhecidos pela animação das várias comunidades étnicas que atravessa, particularmente o Spanish Harlem, e por fazerem “mossa” dado que nos levam até à zona onde a prova começa verdadeiramente, e que é a partir do km 32.

A chamada “parede” insinua-se aos corredores no Bronx, mas não tem mais do que 2 km para deixar a sua marca, a distância que se percorre neste bairro. Começa com a travessia da quarta ponte do percurso, a da Willis Ave, e conduz-nos de volta a Manhattan pela quinta e última ponte, a da Madison Ave, por alturas da East 138th st com a 5th Ave. Esta pareceu-me a parte menos animada de todo o percurso, mas como é tão curta nem se dá muito por isso. Quanto ao muro… se estava lá não dei por ele, apenas reparei nas paredes grafitadas que me iam distraindo a vista.

Assim que pisei a 5th Ave tive a certeza de que a linha de chegada estava garantida. O meu próximo objectivo foi o Marcus Garvey Memorial Park ao km 35, pois é a partir dele que se começa a avistar o topo norte de Central Park na intersecção com a 110th st. O percurso prossegue para sul pela 5th Ave até à 89th st (a sede do NYRR), onde entra no parque para os últimos 4 km da prova. Cheguei a este ponto com aproximadamente 3h40, e com a certeza de que iria concluir a prova entre as 4h00 e as 4h05m, o objectivo para o qual me preparei neste meu regresso à mítica distância.

alex trautwig

14h15. Os km finais em Central Park deram sentido a todos os sacrifícios feitos, muito em particular ao longo dos últimos 4 meses, que me permitiram estar ali preparado e confiante. A sensação de correr naquele local mítico, e ouvir o meu nome dezenas, centenas de vezes gritado pronunciado pelo público anónimo em forma de incentivo, deram-me uma força e um ânimo como nunca imaginei. A milha final em Central Park South e, particularmente, os últimos 195 m são de uma apoteose extraordinária.

14h23. Cruzei a linha de chegada, enquadrada pelas bancadas repletas de espectadores incansáveis no apoio a quem chegava, com uma sensação de vitória que perdurará para sempre na minha memória.

Cruzar esta meta e pôr esta medalha ao peito levou-me, não as oficiais 4h03m54, mas sim dois longos anos. Não corri atrás de tempos ou de recordes pessoais, corri para desafiar e contrariar um destino precocemente anunciado. Corri porque tive a oportunidade de poder voltar a fazê-lo, e não a desperdicei!

Em Nova Iorque reencontrei e vivi toda a magia da Maratona. Não podia ter desejado mais, nem melhor!

alt mny

nycm15

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