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A Quinta do Pisão de Cima insere-se numa área de 380 ha em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. É um espaço cuja paisagem tem sido moldada por séculos de ocupação dos seus terrenos, permanecendo vestígios arqueológicos que recuam ao período Calcolítico e à Idade do Bronze. Durante a Idade Média desenvolveu-se ali o Casal de Porto Covo, existindo no local uma capela dedicada a N. Sra da Conceição, bem como alguns equipamentos de apoio a actividades agrícolas. No séc. XIX iniciou-se a produção sazonal de cal decorrente das características calcárias dos solos, a qual foi assegurada por trabalhadores que, fora desse período, se dedicavam sobretudo à agricultura.

Na década de 1930 do século XX tornou-se num Albergue de Mendicidade da Mitra, designado de Colónia Penal Agrícola do Pisão. Durante o Estado Novo, de acordo com uma política de “regeneração social”, toda a população considerada “marginal” (pobres, sem abrigo, ladrões, homossexuais e doentes mentais), era encaminhada e internada coercivamente nestas instituições.

A Colónia do Pisão, afastada das outras localidades e rodeada por uma vasta área florestal e de exploração agropecuária, constituía o espaço propício para o isolamento e punição. Aqui, os albergados trabalhavam na agricultura, na pecuária, na construção dos edifícios da colónia, na exploração florestal, na pedreira, nos fornos de cal e outros trabalhos de auto-subsistência sob vigilância policial.

A partir de 1985 o Pisão passou a ser gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Cascais e tornou-se numa colónia agrícola que, além de promover a recuperação das áreas agrícolas e florestais, dinamiza a repovoação da fauna e promove uma maior ligação com a população através das actividades desenvolvidas ao longo do ano.

Com tanta história e temas de interesse impunha-se uma visita ao local para a realização de uma série de percursos, o que aconteceu recentemente. Eis o que encontrei.

Franqueado o portão principal da Quinta do Pisão de Cima parti à exploração do seu perímetro. Optei por fazê-lo no sentido dos ponteiros do relógio seguindo pelo Caminho da Penha Longa que decorre paralelo à estrada e à quinta que lhe dão o nome.

Do lado esquerdo vamos acompanhando um verdejante campo de pasto, o Chão da Boa Esperança, uma enorme clareira de terras de aluvião profundas e particularmente ricas, alimentadas pelas águas da pequena lagoa ali existente.

Prossigo para zonas mais altas e a paisagem começa a abrir. Chegado ao entroncamento com o Caminho da Cumeada o deslumbramento é total. Do lado direito pastos verdes e bem cuidados que fazem lembrar uma paisagem alpina, aqui recortada pelos penedos da Serra de Sintra. Do lado esquerdo mais pastos e a paisagem urbana que começa em Alcabideche e se prolonga até ao Atlântico.

Continuo pelo Caminho da Volta da Lagoa, o qual conduz à Lagoa Pequena, um importante local para a nidificação e reprodução de várias espécies de animais, nomeadamente de anfíbios. A vegetação predominante é de tipo palustre, ocorrendo várias espécies de juncos, caniços e tábuas, muito importantes pelo suporte e abrigo que proporcionam à fauna existente naquele ecossistema aquático.

O percurso segue pelo Caminho do Olival proporcionando a observação de um mosaico de matos e prados naturais, onde predominam os matos Mediterrânicos. O próximo local onde me detenho é junto ao edifício do Centro de Apoio Social que marca o limite da Quinta do Pisão, e onde entronca o caminho que faz a ligação à EN 247-5. Seguindo pela direita reentro no espaço da quinta e subo até ao ponto mais elevado deste percurso, o qual revela uma ampla zona cultivada no vale mais abaixo. Ali chegado deparo-me com uma enorme variedade de produtos hortofrutícolas cultivados em regime de agricultura biológica, os quais podem ser adquiridos no local.

A partir deste ponto encontram-se alguns dos locais históricos deste percurso na zona denominada Casal de Porto Covo. O primeiro é a Capela/Ermida em honra de Nossa Senhora da Conceição de Porto Covo, um digno exemplar da obra reconstrutiva do património religioso cascalense após o terramoto de 1755. Construída em 1760 com intuito vocativo, a mando de Luís Mendes e sua mulher Izidora P., é ainda hoje possível encontrar, numa cartela colocada sobre o lintel da porta, uma inscrição indicando a vontade expressa de manutenção de uma memória que seria perpetuada através das missas que decorreriam todos os domingos e dias santos.

De pequenas dimensões, tem uma simplicidade de formas nos frisos e pilastras que, conjugada com outros efeitos decorativos, imprimem algum dinamismo e um efeito cenográfico contido e sóbrio. No centro da capela foram sepultados os encomendadores do edifício, cobertos por uma lápide que, apesar de mal conservada, ainda apresenta curiosos signos decorativos provavelmente de origem iconográfica pré-clássica.

Ainda neste local perduram as ruínas de construções de outras épocas, nomeadamente as pateiras em alvenaria para criação de patos, bem como a comporta que retia e canalizava as águas do Ribeiro do Rio da Mula que activavam uma azenha da qual restam alguns vestígios.

Prosseguindo pelo Caminho de Porto Covo o próximo local de paragem são as ruínas do Forno de Cal. É uma construção de grandes dimensões composta por uma estrutura de combustão cilíndrica aberta, escavada no solo e com paredes de alvenaria de pedra e cal a revestir o interior. A boca da fornalha caracteriza-se por um arco abatido de aduelas de tijolo, no primeiro vão, e uma porta de falso arco em balanço de blocos aparelhados. Num dos lados, uma escadaria de pedra faz o acesso ao topo e, simultaneamente, a ligação às restantes dependências. O local possui uma agradável zona de estadia que convida a uma paragem contemplativa.

Uns metros adiante novo ponto de interesse, neste caso a Gruta de Porto Covo. Explorada em 1879, esta gruta natural revelou uma ocupação de época pré-histórica (Neolítico e Calcolítico), tendo sido utilizada como necrópole. O espólio encontrado é pouco numeroso e constou de alguns materiais de pedra lascada polida e recipientes de cerâmica. Foram ainda recolhi­dos artefactos cerâmicos da Idade do Ferro que indiciam uma ocupação pontual da mesma durante essa altura. Nesta gruta está referenciada a ocorrência do morcego-de-ferradura-peque­no, espécie ameaçada pela degradação do habitat e alteração de áreas de alimentação.

Seguem-se, um pouco adiante e do lado direito, as ruínas da Casa de Apoio Agrícola, uma estrutura que funcionou, em meados do século XX, como refeitório para os trabalhadores e que po­derá estar localizada sobre uma antiga azenha. Paredes-meias encontra-se o Armazém de Cal, local onde eram guardadas as pedras de cal depois do cozi­mento do calcário.

Na parte final o percurso segue pelo Caminho da Casa da Cal em direcção ao ponto de partida, passando por um tanque de rega de grandes dimensões alimentado pela nascente da Boca do Dragão, a qual se situa na encosta do lado esquerdo. Este tanque confina com uma zona de pastagem inserida em solos de aluvião que acompanham a Ribeira do Rio da Mula, e que num dos seus extremos ainda se descortina parte do aqueduto que atravessa a quinta.

Finalmente os últimos metros dos quase 6.400 percorridos e eis-me de volta ao ponto de partida.

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Características do percurso – piso: misto (maioritariamente estradão de terra batida); distância do perímetro: 6,4 km; água: não; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 42.585′, w9º 08.319′; altimetria: gráfico abaixo

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