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Parque Florestal de Monsanto 2020

No ano em que celebra 86 anos (Decreto-Lei 24625 de 1 novembro 1934), o Parque Florestal de Monsanto – PFM – apresenta-se renovado.

Concluídas, quase na totalidade, as (mais do que) necessárias intervenções em várias das suas componentes, do arvoredo à sinalética, dos equipamentos aos percursos, o parque florestal reforça o estatuto de local de exceção para a fruição da natureza.

Porém, tal desígnio é permanentemente ameaçado por via da enorme pressão urbanística e dos planos mais estapafúrdios que alguns patos-bravos e chico-espertos tentam fazer passar junto do executivo camarário, ao arrepio das mais elementares regras de transparência e contra o interesse na preservação de um património natural que é de todos nós.

A rede de percursos no interior do PFM apresentava-se particularmente desgastada, fruto da erosão quer pela água, quer pelo pisoteio. Este desgaste alterou o escoamento das águas e impedia mesmo, em vários pontos, a utilização dos trilhos, conduzindo à criação de alternativas pelos utilizadores com a consequente destruição do coberto natural. Além disso, a sinalética dos percursos datava do início da década de 2010 e estava, há bastante tempo, totalmente degradada ou pura e simplesmente já não existia.

A partir de 2015 a CML iniciou a intervenção de forma consistente nos trilhos mais degradados, complementada com a instalação de uma sinalética uniforme. Foi igualmente desenvolvido um projeto de acalmia do tráfego automóvel de atravessamento do PFM, promovendo dessa forma o aumento da segurança dos utilizadores da mobilidade suave, peões e ciclistas, através da redução da velocidade de circulação. Em fase final de aprovação pelo ICNF e posterior construção está o projeto de um novo atravessamento ciclo-pedonal sobre a Estrada de Monsanto.

Este conjunto de intervenções trouxe, sem dúvida, melhorias assinaláveis nas diversas áreas abrangidas pelo projeto, pelo que fui verificar no local de que forma as mesmas facilitam a realização de atividades no âmbito do pedestrianismo, corrida ou bicicleta, nos vários percursos que o PFM disponibiliza aos visitantes. Aos oito percursos anteriormente existentes foram adicionados mais cinco, pelo que há muito para explorar.

Antes de passar, ao longo das próximas semanas, a partilhar o que (re)encontrei, revisito os artigos publicados em 2012 em que dei a conhecer os vários percursos marcados existentes na altura, os quais podem ser consultados nos seguintes links: rotas e percursos de Monsanto, rota da água, rota da água percurso 1, rota da água percurso 2, moinhos do mocho, seis pedreiras, alameda Keil do Amaral, montado de Monsanto, volta do planalto, rota da biodiversidade e corredor verde.

O que mudou entretanto? É o que fui descobrir.

Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo

Há uns meses atrás, durante a leitura de uma revista de actualidades, deparei-me com o título “Projeto do Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo vencedor dos ArchMarathon Awards 2015 na categoria Landscape and Public Spaces (Paisagem e Espaços Públicos)”.

Desde logo fiquei curioso em saber mais sobre o projecto e o prémio, bem como em conhecê-lo no terreno. No entanto quis fazê-lo de uma forma diferente, ou seja, optei por utilizar apenas os transportes públicos e a bicicleta, pelo que, munido da informação necessária, pedalei até Santa Apolónia e apanhei o comboio até à estação de Alverca, a “porta” mais a Norte de acesso ao local.

Na realidade o projecto integra duas áreas inauguradas em 20 de Julho de 2013, o referido Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo e o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria. Em conjunto ocupam um total de 70 hectares conquistados ao sector industrial privado que proporcionam às comunidades adjacentes a oportunidade do contacto directo com o rio, até então bloqueado por grandes lotes industriais e terrenos agrícolas. Foram dotados de equipamentos culturais e de lazer, bem como de estruturas de acesso que perfazem quase 6.000 metros de trilhos pedonais e cicláveis entre a ribeira da Verdelha (Alverca) e o cais setecentista da Póvoa, os quais percorri na totalidade para melhor conhecer este magnífico local.

O primeiro troço percorrido foi o Trilho da Estação, que liga a estação de comboios de Alverca até à Ribeira da Verdelha, decorrendo paralelo à vedação da linha férrea num misto de via pública e de caminho agrícola. Tem 1,5 km de extensão e foi recentemente intervencionado de forma a delinear o trilho dos caminhos confinantes.

Parque Ribeirinho 4

Chego à ribeira e continuo pelo Trilho da Verdelha que decorre ao longo de quase 2 km sobre os seus combros até à foz.

Parque Ribeirinho 5

A paisagem varia entre ecossistemas naturais associados ao sapal e às salinas visíveis para Sul, e as áreas agrícolas a Norte, sendo um trilho particularmente bonito e com grande biodiversidade que termina na foz da Ribeira da Verdelha. Este local proporciona uma zona de estadia que é, simultâneamente, um abrigo para observação de aves, existindo também um painel informativo que permite aprender um pouco mais sobre este ecossistema.

Parque Ribeirinho 2

É também neste ponto que entroncam os trilhos do Tejo e o do Forte da Casa, os quais conduzem a zonas muito distintas desta extensa área.

Parque Ribeirinho 1

Segui pelo Trilho do Forte da Casa que conduz, ao longo dos seus 1,3 km, à passagem pedonal sobre a Estrada Nacional 10 e a linha férrea, do cimo da qual se tem uma espectacular vista panorâmica da parte Norte do parque.

Parque Ribeirinho 3

Regressado à foz da ribeira prossegui pelo Trilho do Tejo ao longo dos 730 m do passadiço de madeira sobre o dique, o ex-libris deste parque, que atravessa uma paisagem com grande valor natural e elevado interesse pedagógico, caracterizada por extensas áreas de sapal, agrícolas e salinas abandonadas, que proporcionam a observação de fauna e flora diversificada e própria destes ecossistemas.

Parque Ribeirinho 6

A Praia dos Pescadores foi a paragem seguinte. Um local para actividades de lazer que incluí parque de merendas, zona desportiva, o Centro de Interpretação do Ambiente e da Paisagem (CIAP), uma cafetaria (ambos aparentemente encerrados?) e estrados de solário, distribuídos por 14 ha.

Parque Ribeirinho 7

A sua construção permitiu reabilitar uma antiga zona industrial de depósitos de areia, tendo sido utilizadas paletes recicladas e pneus velhos para construir alguns dos espaços e equipamentos, sendo a iluminação assegurada com electricidade totalmente produzida a partir de painéis fotovoltaicos.

Parque Ribeirinho 8

É um espaço que ainda está em desenvolvimento, como facilmente se percebe pelo tamanho das árvores ali existentes, porém já denota alguns sinais de degradação, nomeadamente candeeiros partidos e equipamentos vandalizados pelos “bandalhos dos riscos”. Um problema que a edilidade Vila Franquense tem de abordar sem demora de forma a não permitir que o “deixa andar” se instale!

Daqui continuo pelo Trilho da Póvoa até à zona mais a Sul deste magnífico local, o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria idealizado pelo Arqº Paisagista Sidónio Pardal.

Parque Ribeirinho 9

Ocupa uma área de cerca de 7 ha e engloba zonas verdes e de lazer, o Núcleo Museológico “A Póvoa e o Rio”, cafetaria, arrecadações e o cais de apoio à pesca dirigido à comunidade avieira, um parque infantil e juvenil, anfiteatro ao ar livre e zona desportiva e de manutenção. Ao contrário do local anterior, aqui as infraestruturas estão cuidadas e em utilização, talvez devido à proximidade da malha urbana.

Parque Ribeirinho 10

Vistas amplas e espectaculares, contacto com a natureza, biodiversidade, belos locais de estadia e muita tranquilidade justificam o prémio referido no início desta crónica. O projecto do Parque Linear do Estuário do Tejo foi desenvolvido pela equipa do atelier Topiaris, coordenado pelo Arqº Paisagista Luís Paulo Ribeiro, e a sua construção implicou o investimento público de 6,5 milhões de euros (comparticipados em 65 por cento por fundos comunitários). O objetivo que norteou o projecto foi “o de repensar o espaço público num universo complexo de paisagem urbana, industrial, agrícola e natural, sedimentado nas características naturais e culturais da paisagem, promovendo a protecção dos sistemas naturais e a regeneração ecológica das áreas degradadas. Faz também parte de uma intervenção mais ampla de requalificação da zona ribeirinha sul do concelho de Vila Franca de Xira, abrangendo as localidades de Alverca, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria. Preconiza o aproveitamento dos recursos naturais já existentes no sentido de potenciar a fruição por parte da população, assumindo-se como uma infraestrutura estratégica em termos de recreio e lazer.”

O Parque Ribeirinho do Estuário do Tejo proporciona tudo o acima mencionado (e muito mais) a todos os que se dignarem visitá-lo, seja para uma simples caminhada, uma corrida ou um passeio de bicicleta. E tenho para mim que quanto mais o divulgarmos, mais contribuímos para a sua conservação e preservação. A não perder!

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Características do percurso – piso: misto (alcatrão, terra batida e calçada); distância total – 6,1 km; distâncias parciais: Trilho da Estação – 1,5 km; Trilho da Verdelha – 1,95 km; Trilho do Forte da Casa – 1,3 km; Trilho do Tejo – 0,7 km; Trilho da Póvoa – 0,63 km; água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 1; coordenadas gps do ponto de partida: n38º 53′ 26″, w9º 1′ 58″; ponto de chegada: n38º 51′ 28″, w9º 3′ 37″.

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