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a matinha de queluz.

projeçao visual palácio e matinha de queluz - ilidio de araújo 1925

A Matinha de Queluz é um espaço florestal murado de 21 ha, anexa ao Palácio Nacional de Queluz e separada dos seus jardins pelo IC19, a via mais movimentada do país. Sobre a sua génese conhece-se muito pouco, havendo, no entanto, registos de que se tornou propriedade da Casa Real após a Restauração de 1640.

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Com a construção do Palácio de Queluz, iniciada em 1747, passou a ser parte integrante dos jardins do mesmo, havendo referências de que a Rainha Carlota Joaquina – A megera de Queluz – tenha mandado construir, em 1823, uma praça no meio da mata no local conhecido como “meia-laranja”, destinado às distrações tauromáquicas de D. Miguel, o seu filho dilecto de má memória, e à realização de espectáculos de teatro ao ar livre.

Dado estar localizada numa zona sujeita a influências atlântica e mediterrânea possui, entre as inúmeras espécies arbóreas espontâneas, um povoamento relíquia de sobreiros, os quais nunca foram descortiçados, além de carvalhos e azinheiras, e outra vegetação nativa, considerado um testemunho residual da formação vegetal que cobriria a zona em tempos antigos. Existem ainda, pensa-se que plantadas posteriormente, alfarrobeiras, olaias e freixos que, no seu conjunto, formam uma mata adulta que se conserva num estado muito natural.

Na actualidade e no seguimento de um protocolo assinado em Abril de 2006, o espaço está sob a alçada da C.M. de Sintra, à qual cabe a manutenção, conservação e beneficiação deste sensível ecossistema, ao qual fui fazer uma visita em forma de treino. Eis o que encontrei.

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A primeira sensação que se tem quando entramos na Matinha de Queluz é de que estamos, verdadeiramente, muito longe do bulício caótico do vizinho IC19. No painel existente após o portão de acesso ficamos a conhecer um pouco da história do local, bem como da flora e fauna ali existentes. De bastante utilidade é o mapa que assinala os percursos delineados, tendo constatado que estão marcados três circuitos de manutenção, os quais percorrem os caminhos da mata em distâncias variadas. Assim sendo, decidi percorrer cada um deles, tendo começado pelo mais longo para dar início à exploração deste magnífico local.

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Seja qual for a direcção escolhida, só existe uma opção: subir ou subir! Optei pela direcção contrária à dos ponteiros do relógio, o caminho da direita, seguindo paralelo ao muro que delimita a mata e que permite descobrir o perímetro destes 21 ha. O piso é predominantemente em pedra e muito irregular, aconselhando cuidado redobrado, pois além de escorregadio tem muitas saliências à superfície. No entanto, a beleza natural que o espaço proporciona ao longo dos 1,9 km deste percurso compensa qualquer percalço que possa suceder.

Percorrido o perímetro da mata passei à exploração dos dois circuitos restantes, o médio e o pequeno, na extensão de 1,4 e 1 km, respectivamente. Parte significativa do traçado de ambos é comum com o acima descrito, variando apenas na forma como percorrem longitudinalmente a mata. Nestes caminhos o piso revelou-se uma agradável surpresa pela suavidade que proporcionam, dado estarem cobertos por uma espessa camada de folhas.

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O circuito médio faz a passagem pela “meia-laranja” e o pequeno pela clareira central, locais de confluência de outros trilhos secundários. No entanto é preciso alguma atenção para os fazermos tal como estão delineados, dado as marcações serem quase inexistentes escassas e estarem a precisar urgentemente de reparação.

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Porém, existe uma situação que é, no mínimo, constrangedora para quem vai usufruir do espaço para a prática desportiva ou para uma simples caminhada. A mata é um notório ponto de encontro homossexual, havendo um enorme corrupio de indivíduos em busca de um parceiro de ocasião. Sem querer entrar em considerações moralistas (cada qual é livre de ter a orientação sexual que entende), não se pode deixar de ter em conta que a Matinha de Queluz é um local onde as escolas fazem, frequentemente, visitas de estudo com crianças, pelo que me parece pertinente deixar a questão: a C.M. de Sintra e a Junta de Freguesia de Queluz não sabem o que se passa, ou simplesmente fecham os olhos e fingem que nada acontece…?!

No entanto, apesar do que acima relato, não tenho dúvidas em considerar a Matinha de Queluz um verdadeiro tesouro natural. Oxalá haja inteligência e vontade para a manter assim preservada e, já agora, livre da “fauna” que ali estabeleceu o seu “habitat não natural”…

Características do percurso – piso: misto (empedrado e terra batida); distâncias dos circuitos: grande – 1,9 km; médio – 1,4 km; pequeno – 1 km; tipo: circular; água: não; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 44.49′, w9º 15.31′.

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Percorrida a zona oriental continuo o percurso, agora de Sul para Norte, entrando na zona ocidental pela Alameda Edgar Cardoso. O primeiro edifício com que nos deparamos é o Clube VII, um espaço desportivo construído nos anos 90 na sequência da desafectação do domínio público de cerca de 8.800 m2 dos 132 mil que tinham sido expropriados, em 1914, à família do marquês da Graciosa.

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Clube VII.

Foram assim ali construídos o complexo de ténis e um parque de estacionamento subterrâneo, ambos privados, durante a presidência de Krus Abecassis, num mandato do qual apetece dizer que “nunca tão poucos, em tão pouco tempo, fizeram tanto mal à cidade”.

Passado este local segue-se uma zona de estância composta por um quiosque (de edificação mais recente) e pelo parque infantil, um espaço funcional e bem cuidado.

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Parque infantil e cafetaria.

Nele podem ser vistas duas estátuas de figuras de crianças – dois rapazes e rapaz e rapariga – do escultor Martinho Félix de Brito, datadas de 1963.

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Estátuas de crianças de M. Brito.

Um pouco adiante segue-se a grande “jóia” do parque e que dá pelo nome de Estufa Fria. Construída no local onde existia uma pedreira de basalto, é uma estrutura única em todo o país, que alberga uma colecção botânica proveniente das mais diversas regiões do mundo. Em 1926, o arquitecto e pintor Raul Carapinha, tendo ali encontrado um agradável espaço verde, idealiza um projecto para o transformar numa Estufa, a qual é concluída em 1930 e inaugurada oficialmente três anos depois.

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Construção da Estufa Fria.

No final dos anos 40, o novo projecto do Parque Eduardo VII também provocou alterações na Estufa Fria, sendo as mais importantes o reenquadramento e remodelação da entrada, a criação do lago fronteiro e a construção duma enorme sala por baixo da alameda do Parque, a “Nave“, usada durante anos como teatro municipal. Em 1975, foram abertas ao público a Estufa Quente e a Estufa Doce, destinadas à exposição permanente de plantas tropicais e equatoriais.

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Panorâmica aérea da Estufa Fria e complexo desportivo.

A entrada neste local único faz-se pelo belo pórtico / torre projectado por Keil do Amaral em 1949, o qual preserva toda a beleza e simplicidade do traço original.

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Estufa Fria. Pórtico de Keil do Amaral.

Enquadrando este espaço existem um lago e um pequeno largo que albergam várias estátuas, entre elas o monumento ao Rei Eduardo VII de Inglaterra, da autoria do escultor Albert Bruce-Joy, inaugurado a 27 de Março de 1985 pela Rainha Isabel II.

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Lago da Estufa Fria.

A Estufa Fria renasceu e está de cara lavada, no seguimento da profunda intervenção que visou a sua recuperação (após ter sido detectado, em 2009, o colapso eminente da estrutura) e adaptação para os tempos actuais. Os 3,10 euros que custam a visita são mais do que recompensados pelo fabuloso acervo botânico que ali pode ser admirado.

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“Vento garroa”, Domingos Soares Branco, 1954, “Nú de mulher”, Anjos Teixeira, “Nayade”, Francisco de Assis Rodrigues, 1935 e “Eduardo VII”, Albert Bruce-Joy, 1985.

Continuando para a parte final deste percurso retomo a alameda central do parque para, um pouco adiante, regressar ao local de partida.

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Alameda central e passeios laterais.

Este percurso pelo Parque Eduardo VII espelha bem o quão anacrónica é a política (ou antes, a falta dela) subjacente à defesa e manutenção do património histórico da cidade. Que pensar do governo de uma cidade – capital de um país – que se dá ao luxo de desperdiçar a mais importante mancha verde implantada na sua zona mais central, um local mencionado em todos os guias e visitado por milhares de turistas? Um espaço ímpar ao qual vai sendo retirada a dignidade e elegância do projecto original. Os dois lados do parque mostram uma realidade diametralmente oposta. A Estufa Fria, o jardim infantil e o complexo desportivo estão cuidados e devidamente operacionais. Do lado oposto a realidade é ilustrada pelo pavilhão Carlos Lopes. O estado a que se deixou chegar um edifício daquela nobreza é uma vergonha imensa! Seria de todo o interesse que a C.M.L. esclarecesse os munícipes sobre o destino que deu ao dinheiro que estava destinado, por via das receitas do Casino na Expo, para a sua recuperação.

Apesar das intervenções que estão em curso o desleixo e o deixa andar (ainda) estão patentes um pouco por todo o lado persiste em alguns locais, basta ver a estatuária vandalizada, os equipamentos rabiscados e semi-destruídos, os passeios esburacados, as obras inacabadas.

Uma triste realidade que necessita, urgentemente, de ser travada e revertida solucionada por quem tem a responsabilidade de cuidar pelo património da “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa“.

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Perímetro, interior e alameda do percurso.

Características do percurso – piso: duro (alcatrão e calçada); distâncias: perímetro – 2,4 km; interior – 2 km; alameda – 1,4 km; água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2 coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 42.585′, w9º 08.319′.

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