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parque urbano felício loureiro.

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A Zona Especial de Protecção (Z.E.P.) do Palácio Nacional de Queluz foi uma das primeiras a ser criadas a nível nacional (1910) e teve como objectivo garantir a preservação do enquadramento arquitectónico e paisagístico deste histórico conjunto monumental único no nosso país. Promove igualmente um melhor aproveitamento do importante legado que as gerações anteriores nos deixaram, o qual inclui o conjunto urbano entre o Monumento e a estação de Caminhos de Ferro, a Matinha de Queluz, a Ponte Pedrinha (Aqueduto) e a zona florestal da Quinta Nova, bem como a unidade paisagística formada pelas várzeas do Rio Jamor e da Ribeira de Carenque.

O espaço que fui conhecer, o Parque Urbano de Queluz, insere-se nesta zona especial, sendo um local essencial para a qualidade de vida dos Queluzenses e para o equilíbrio ambiental duma cidade em que os espaços verdes escasseiam. Vamos conhecê-lo?

Este parque foi oficialmente inaugurado em 3 de Maio de 1999 e ocupa uma área de 12 ha de relva e zonas de passeios, tendo recebido o nome do vereador Joaquim Felício Loureiro, falecido no final de 1998 e até então residente nas imediações do mesmo. A sua construção foi, no entanto, alvo de várias vicissitudes, tendo servido durante anos como bandeira eleitoral das forças políticas que governaram a edilidade Sintrense. Composto por amplos espaços relvados, um parque infantil, circuito de manutenção, parque de merendas, campo de jogos, uma fonte luminosa e uma linha de água natural, o parque complementa os vizinhos Jardins do Palácio Nacional de Queluz e a Quinta Nova. O plano inicial previa a sua extensão pelo vale do rio Jamor até à freguesia de Belas, o que até à data não se verificou, apesar dos melhoramentos que foram sendo realizados.

nora

Embora não seja extenso, o percurso ao longo deste espaço verde é variado e interessante pela forma como convive com o património histórico, tendo começado no sentido Sul – Norte pelo caminho paralelo ao rio Jamor que ali corre emparedado. Nos primeiros metros pode ver-se uma antiga nora, testemunho de uma época em que a corrente do rio era aproveitada para uma qualquer actividade produtiva.

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Mais adiante, implantada no amplo relvado do lado esquerdo podemos ver a escultura sem nome de José Pedro Croft, composta por um conjunto de quatro volumes geométricos – três dos quais na forma de uma casa simplificada, o quarto semelhante a um telhado de duas águas – inspirados nas estufas do Jardim Botânico da Tapada da Ajuda -, pela qual foi duplamente distinguido em 2001 com o Prémio Nacional de Arte Pública e o Prémio EDP.ARTE para a categoria de desenho.

Prosseguindo pelo caminho central chego ao próximo local histórico deste parque e um dos ex-libris de Queluz, o Aqueduto da Gargantada, uma obra de finais do século XVIII que, inserindo-se no gigantesco complexo do Aqueduto das Águas Livres, teve como missão canalizar a água para o palácio real.

aqueduto antigo

A sua construção, em 1790, ficou a dever-se à iniciativa do rei D. João VI, e foi possibilitada pela doação ao monarca da nascente da Gargantada, até então na posse de José Justino Álvares, pequeno proprietário rural da zona de Carenque. Um ano após o arranque do estaleiro estava concluído o troço entre a nascente e a ponte de cima de Carenque e, em 1794, a água chegava finalmente ao palácio onde entroncava com um complexo sistema de abastecimento às várias secções do conjunto. Uma parte substancial do precioso líquido ficou disponível para o público, através das Fontes das Quatro Bicas (desaparecida na década de 50 do século XX) e dos Namorados e, ainda, do Chafariz das Carrancas. Outra parcela era directamente enviada para a Real Quinta, onde era utilizada na rega, e existiam numerosos outros ramais que levavam água às cozinhas e demais dependências de apoio ao palácio.

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Embora com assinalável impacto monumental, construtivamente é uma obra relativamente modesta (distante qualitativamente do Aqueduto das Águas Livres), com recurso sistemático ao arco de volta perfeita, visíveis nos troços à superfície. Porém, a maior parte da estrutura não possui esta solução arquitectónica e encontra-se semi-enterrada no solo. Na actualidade, existem duas secções distintas do aqueduto. A primeira, certamente a mais antiga, localiza-se entre a linha de caminho de ferro (Lisboa – Sintra) e a estrada que leva à ponte de Carenque, tendo sido integrada na paisagem urbana, radicalmente transformada nas últimas décadas. A segunda localiza-se já no caminho para o palácio e, apesar de se encontrar em relativo bom estado de conservação, possui anexas múltiplas construções, o que levou a que algumas parcelas tenham sido integradas nas áreas ajardinadas das urbanizações que o foram “engolindo”.

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Continuo pelo Largo Ponte Pedrinha, onde aproveito para beber um pouco de água no Chafariz integrado no pilar de um dos arcos do aqueduto, e prossigo pela R. Dr Manuel de Arriaga para voltar a entrar no parque um pouco adiante junto ao jardim infantil. Segue-se uma zona com aparelhos de manutenção e outra de estadia com bancos e mesas e, de seguida, cruzo o Jamor para continuar este percurso na zona contígua ao palácio.

pergola

Atravessada a Av. Engº Duarte Pacheco entro na zona mais recente do Parque Urbano, a qual é delimitada pela EN117 e o muro do palácio. Desenvolve-se num plano desnivelado no cimo do qual existe uma pérgola que proporciona uma vista abrangente sobre todo o espaço. Prossigo pelo caminho paralelo às cocheiras e armazéns do palácio e detenho-me no ponto mais alto para apreciar as vistas. Continuo pela esquerda numa zona de pinhal, pela qual se entra num vasto terreno que confina com as traseiras do jardim do palácio, no qual fui percorrer o perímetro que se desenvolve ao longo de 1,4 km. Após retornar ao percurso principal desci até à avenida que tinha atravessado minutos antes, regressando assim ao ponto de partida.

A impressão com que fiquei do Parque Urbano de Queluz foi bastante positiva, apesar dos sinais de degradação/vandalismo que se começam a fazer notar. Inserido numa das áreas mais antigas e características da jovem cidade, conjuga a actual realidade urbana com a forte identidade histórica desta zona protegida.

Cumpre igualmente uma importante função social pelos momentos de lazer e de encontro com a natureza que proporciona aos utentes, que contrasta, pela positiva, com a densificação e monotonia das zonas urbanas mais recentes de Queluz. Um bom exemplo que deveria ser seguido por outras autarquias ou municípios.

gráficos

Características do percurso – piso: misto (alcatrão, calçada e terra batida); distâncias: perímetro parque urbano – 2,4 kmterreno anexo – 1,4 km; água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2 coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 44.58′, w9º 15.11′.

a matinha de queluz.

projeçao visual palácio e matinha de queluz - ilidio de araújo 1925

A Matinha de Queluz é um espaço florestal murado de 21 ha, anexa ao Palácio Nacional de Queluz e separada dos seus jardins pelo IC19, a via mais movimentada do país. Sobre a sua génese conhece-se muito pouco, havendo, no entanto, registos de que se tornou propriedade da Casa Real após a Restauração de 1640.

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Com a construção do Palácio de Queluz, iniciada em 1747, passou a ser parte integrante dos jardins do mesmo, havendo referências de que a Rainha Carlota Joaquina – A megera de Queluz – tenha mandado construir, em 1823, uma praça no meio da mata no local conhecido como “meia-laranja”, destinado às distrações tauromáquicas de D. Miguel, o seu filho dilecto de má memória, e à realização de espectáculos de teatro ao ar livre.

Dado estar localizada numa zona sujeita a influências atlântica e mediterrânea possui, entre as inúmeras espécies arbóreas espontâneas, um povoamento relíquia de sobreiros, os quais nunca foram descortiçados, além de carvalhos e azinheiras, e outra vegetação nativa, considerado um testemunho residual da formação vegetal que cobriria a zona em tempos antigos. Existem ainda, pensa-se que plantadas posteriormente, alfarrobeiras, olaias e freixos que, no seu conjunto, formam uma mata adulta que se conserva num estado muito natural.

Na actualidade e no seguimento de um protocolo assinado em Abril de 2006, o espaço está sob a alçada da C.M. de Sintra, à qual cabe a manutenção, conservação e beneficiação deste sensível ecossistema, ao qual fui fazer uma visita em forma de treino. Eis o que encontrei.

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A primeira sensação que se tem quando entramos na Matinha de Queluz é de que estamos, verdadeiramente, muito longe do bulício caótico do vizinho IC19. No painel existente após o portão de acesso ficamos a conhecer um pouco da história do local, bem como da flora e fauna ali existentes. De bastante utilidade é o mapa que assinala os percursos delineados, tendo constatado que estão marcados três circuitos de manutenção, os quais percorrem os caminhos da mata em distâncias variadas. Assim sendo, decidi percorrer cada um deles, tendo começado pelo mais longo para dar início à exploração deste magnífico local.

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Seja qual for a direcção escolhida, só existe uma opção: subir ou subir! Optei pela direcção contrária à dos ponteiros do relógio, o caminho da direita, seguindo paralelo ao muro que delimita a mata e que permite descobrir o perímetro destes 21 ha. O piso é predominantemente em pedra e muito irregular, aconselhando cuidado redobrado, pois além de escorregadio tem muitas saliências à superfície. No entanto, a beleza natural que o espaço proporciona ao longo dos 1,9 km deste percurso compensa qualquer percalço que possa suceder.

Percorrido o perímetro da mata passei à exploração dos dois circuitos restantes, o médio e o pequeno, na extensão de 1,4 e 1 km, respectivamente. Parte significativa do traçado de ambos é comum com o acima descrito, variando apenas na forma como percorrem longitudinalmente a mata. Nestes caminhos o piso revelou-se uma agradável surpresa pela suavidade que proporcionam, dado estarem cobertos por uma espessa camada de folhas.

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O circuito médio faz a passagem pela “meia-laranja” e o pequeno pela clareira central, locais de confluência de outros trilhos secundários. No entanto é preciso alguma atenção para os fazermos tal como estão delineados, dado as marcações serem quase inexistentes escassas e estarem a precisar urgentemente de reparação.

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Porém, existe uma situação que é, no mínimo, constrangedora para quem vai usufruir do espaço para a prática desportiva ou para uma simples caminhada. A mata é um notório ponto de encontro homossexual, havendo um enorme corrupio de indivíduos em busca de um parceiro de ocasião. Sem querer entrar em considerações moralistas (cada qual é livre de ter a orientação sexual que entende), não se pode deixar de ter em conta que a Matinha de Queluz é um local onde as escolas fazem, frequentemente, visitas de estudo com crianças, pelo que me parece pertinente deixar a questão: a C.M. de Sintra e a Junta de Freguesia de Queluz não sabem o que se passa, ou simplesmente fecham os olhos e fingem que nada acontece…?!

No entanto, apesar do que acima relato, não tenho dúvidas em considerar a Matinha de Queluz um verdadeiro tesouro natural. Oxalá haja inteligência e vontade para a manter assim preservada e, já agora, livre da “fauna” que ali estabeleceu o seu “habitat não natural”…

Características do percurso – piso: misto (empedrado e terra batida); distâncias dos circuitos: grande – 1,9 km; médio – 1,4 km; pequeno – 1 km; tipo: circular; água: não; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 2; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 44.49′, w9º 15.31′.