pedestrianismo

passadiços do paiva

A génese dos Passadiços do Paiva remonta a 2011 quando a edilidade de Arouca encarregou o gabinete de engenharia Trimétrica para proceder ao estudo para a edificação de uma estrutura em madeira na margem esquerda do rio Paiva.

Apesar das reticências iniciais do Instituto da Conservação da Natureza, dado a área em questão estar integrada na Rede Natura 2000, o resultado final do que ali se construiu é uma estrutura leve e arquitectonicamente muito interessante, que aproxima os visitantes da natureza no seu estado mais selvagem, num percurso pelas curvas e contracurvas dos rápidos e das praias do rio.

mapa

Inaugurados a 20 de Junho de 2015 tiveram, na 1ª fase da sua existência, uma inesperada afluência de visitantes que, em vários dias do verão passado, instalaram o caos na pacatez do Areinho e de Espiunca, impreparados para lidar com o impacto provocado por 200.000 visitantes em 2 meses. Foi caso para dizer que nem as populações locais, nem a natureza, estavam preparadas para enfrentar tanta notoriedade e lidar com tamanho sucesso.

Até que, no dia 7 de Setembro, um violento incêndio florestal (cujas marcas são ainda bem visíveis nas encostas de parte do percurso) destruiu perto de 600 m da obra recém construída, o que levou ao encerramento da estrutura até ao passado dia 15 de Fevereiro, data que assinalou o início da segunda vida dos Passadiços do Paiva.zona ardida

Desta vez com regras de utilização bem definidas (número de visitantes diário limitado a 3.500 mediante pré-reserva – 1 euro) e com alguns dos erros iniciais detectados em vias de resolução, nomeadamente no capítulo do trânsito nas zonas de acesso e dos parques de estacionamento que irão pontuar ambas as extremidades do trajecto. Outra novidade desta nova versão é a escadaria que substituiu o troço de 1 km em caminho florestal a partir do extremo do Areinho, a qual veio reforçar a qualidade do percurso proporcionando uma perspectiva mais elevada sobre a envolvente.

A visita que efectuei recentemente (num dia de semana) para conhecer o percurso na vertente de ida-e-volta validou todas as expectativas que tinha relativas ao mesmo. É de uma beleza ímpar e fantasticamente enquadrado na paisagem, um feliz diálogo com a natureza, a morfologia e as vistas panorâmicas que o local proporciona.

vista geral

Iniciei o percurso pelo acesso da Espiunca e, ao longo dos 8.645 m que conduzem ao Areinho, “lava-se a vista e apazigua-se a alma” com a beleza e a tranquilidade que toda a envolvente natural proporcionam. Inserido no fundo de desfiladeiros de vertentes abruptas, o Paiva tanto corre revolto nas zonas dos vários rápidos que encontra ao longo do seu curso, como a seguir surpreende pela calma com que corre nas zonas mais baixas.

Podemos também apreciar a enorme bio e geodiversidade que o local alberga, a qual vai sendo identificada nos vários paineis informativos existentes em diversos pontos. Os primeiros locais de paragem obrigatória são os rápidos onde o Paiva corre revolto, primeiro os dos 3 Saltinhos e, um pouco mais adiante, os do Salto.

rapidos

Passados estes locais o rio acalma, correndo num leve murmúrio na bonita praia fluvial do Vau, um tranquilo local de estadia cujas grandes atrações são a ponte suspensa e a cascata que serra abaixo ali encontra o seu final.

vau

O grande obstáculo neste sentido aparece ao km 5,6 sob a forma de uma imponente escadaria, que só se vence após galgarmos 454 degraus e um desnível de 145 metros, mas que do topo nos recompensa com uma espectacular panorâmica da garganta do Paiva e da cascata das Aguieiras.

agueiras

Depois é seguir em direcção ao Areinho, descendo a fraga pelos 580 degraus da nova escadaria que substituiu o antigo troço florestal, finda a qual se chega à ponte de Alvarenga. Cruzada a estrada R326-1 restam percorrer cerca de novecentos metros até à praia fluvial do Areinho, o ponto final (ou inicial, conforme opção) dos Passadiços do Paiva.

areinho

Directamente para o topo das maravilhas naturais de Portugal!

ppaiva esp are

Características do percurso – piso: madeira e terra batida; distância: 8,6 km; retorno: opcional; água: não; estacionamento: fácil (dias de semana e fora de época); grau de dificuldade (1 a 5): 3,5; coordenadas gps do ponto inicial/final: Espiunca N 40°59’34.67″, W 8°12’41.19″; Areinho N 40°57’9.68″, W 8°10’33.05″; altimetria:

alt pp esp are

Notas finais: No dia em que visitei os PdP estiveram no mesmo apenas cerca de 100 pessoas, o que proporcionou uma jornada muito tranquila que permitiu desfrutar na plenitude tudo o que o local tem para oferecer. Porém, o fim de semana fora muito complicado, com o número de visitantes a aproximar-se do limite máximo permitido. Esse facto originou, desde logo, dois problemas: dificuldades de circulação nos passadiços e trânsito/estacionamento caóticos. No caso de uma emergência (tal como um incêndio florestal ou acidente) será muito difícil aos meios de socorro chegarem ao local, numa altura em que o Verão se aproxima e, com ele, a previsão de uma enorme afluência de visitantes.

Apesar do problema do estacionamento estar identificado não se vislumbram trabalhos tendentes a resolver o mesmo, o que é de estranhar dado que os Passadiços do Paiva concorrem ao galardão “World Travel Awards 2016” na categoria “Europe´s Leading Tourism Development Project“. No entanto acredito que a autarquia de Arouca esteja em vias de resolver o assunto.

Por último algumas recomendações úteis. Prepare antecipadamente a visita e utilize equipamento confortável e adequado à época do ano. Apesar do piso ser maioritariamente em madeira, existem algumas zonas de terra batida, pelo que chinelos ou sapatos normais são péssimas opções. Chapéu e protector solar também são aconselháveis, dado o percurso estar muito exposto ao sol e ter poucas zonas protegidas. Leve uma mochila com água e um lanche, sempre são entre duas a três horas de caminhada e, já agora, o fato-de-banho para um mergulho nas águas cristalinas da praia do Vau. Para os que pretendam fazer o percurso de ida-e-volta confirmo que o sentido Areinho – Espiunca é um pouco mais fácil.

Os espectaculares e imperdíveis Passadiços do Paiva esperam por si. Aventure-se!

arouca geopark

Anúncios

Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo

Há uns meses atrás, durante a leitura de uma revista de actualidades, deparei-me com o título “Projeto do Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo vencedor dos ArchMarathon Awards 2015 na categoria Landscape and Public Spaces (Paisagem e Espaços Públicos)”.

Desde logo fiquei curioso em saber mais sobre o projecto e o prémio, bem como em conhecê-lo no terreno. No entanto quis fazê-lo de uma forma diferente, ou seja, optei por utilizar apenas os transportes públicos e a bicicleta, pelo que, munido da informação necessária, pedalei até Santa Apolónia e apanhei o comboio até à estação de Alverca, a “porta” mais a Norte de acesso ao local.

Na realidade o projecto integra duas áreas inauguradas em 20 de Julho de 2013, o referido Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo e o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria. Em conjunto ocupam um total de 70 hectares conquistados ao sector industrial privado que proporcionam às comunidades adjacentes a oportunidade do contacto directo com o rio, até então bloqueado por grandes lotes industriais e terrenos agrícolas. Foram dotados de equipamentos culturais e de lazer, bem como de estruturas de acesso que perfazem quase 6.000 metros de trilhos pedonais e cicláveis entre a ribeira da Verdelha (Alverca) e o cais setecentista da Póvoa, os quais percorri na totalidade para melhor conhecer este magnífico local.

O primeiro troço percorrido foi o Trilho da Estação, que liga a estação de comboios de Alverca até à Ribeira da Verdelha, decorrendo paralelo à vedação da linha férrea num misto de via pública e de caminho agrícola. Tem 1,5 km de extensão e foi recentemente intervencionado de forma a delinear o trilho dos caminhos confinantes.

Parque Ribeirinho 4

Chego à ribeira e continuo pelo Trilho da Verdelha que decorre ao longo de quase 2 km sobre os seus combros até à foz.

Parque Ribeirinho 5

A paisagem varia entre ecossistemas naturais associados ao sapal e às salinas visíveis para Sul, e as áreas agrícolas a Norte, sendo um trilho particularmente bonito e com grande biodiversidade que termina na foz da Ribeira da Verdelha. Este local proporciona uma zona de estadia que é, simultâneamente, um abrigo para observação de aves, existindo também um painel informativo que permite aprender um pouco mais sobre este ecossistema.

Parque Ribeirinho 2

É também neste ponto que entroncam os trilhos do Tejo e o do Forte da Casa, os quais conduzem a zonas muito distintas desta extensa área.

Parque Ribeirinho 1

Segui pelo Trilho do Forte da Casa que conduz, ao longo dos seus 1,3 km, à passagem pedonal sobre a Estrada Nacional 10 e a linha férrea, do cimo da qual se tem uma espectacular vista panorâmica da parte Norte do parque.

Parque Ribeirinho 3

Regressado à foz da ribeira prossegui pelo Trilho do Tejo ao longo dos 730 m do passadiço de madeira sobre o dique, o ex-libris deste parque, que atravessa uma paisagem com grande valor natural e elevado interesse pedagógico, caracterizada por extensas áreas de sapal, agrícolas e salinas abandonadas, que proporcionam a observação de fauna e flora diversificada e própria destes ecossistemas.

Parque Ribeirinho 6

A Praia dos Pescadores foi a paragem seguinte. Um local para actividades de lazer que incluí parque de merendas, zona desportiva, o Centro de Interpretação do Ambiente e da Paisagem (CIAP), uma cafetaria (ambos aparentemente encerrados?) e estrados de solário, distribuídos por 14 ha.

Parque Ribeirinho 7

A sua construção permitiu reabilitar uma antiga zona industrial de depósitos de areia, tendo sido utilizadas paletes recicladas e pneus velhos para construir alguns dos espaços e equipamentos, sendo a iluminação assegurada com electricidade totalmente produzida a partir de painéis fotovoltaicos.

Parque Ribeirinho 8

É um espaço que ainda está em desenvolvimento, como facilmente se percebe pelo tamanho das árvores ali existentes, porém já denota alguns sinais de degradação, nomeadamente candeeiros partidos e equipamentos vandalizados pelos “bandalhos dos riscos”. Um problema que a edilidade Vila Franquense tem de abordar sem demora de forma a não permitir que o “deixa andar” se instale!

Daqui continuo pelo Trilho da Póvoa até à zona mais a Sul deste magnífico local, o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria idealizado pelo Arqº Paisagista Sidónio Pardal.

Parque Ribeirinho 9

Ocupa uma área de cerca de 7 ha e engloba zonas verdes e de lazer, o Núcleo Museológico “A Póvoa e o Rio”, cafetaria, arrecadações e o cais de apoio à pesca dirigido à comunidade avieira, um parque infantil e juvenil, anfiteatro ao ar livre e zona desportiva e de manutenção. Ao contrário do local anterior, aqui as infraestruturas estão cuidadas e em utilização, talvez devido à proximidade da malha urbana.

Parque Ribeirinho 10

Vistas amplas e espectaculares, contacto com a natureza, biodiversidade, belos locais de estadia e muita tranquilidade justificam o prémio referido no início desta crónica. O projecto do Parque Linear do Estuário do Tejo foi desenvolvido pela equipa do atelier Topiaris, coordenado pelo Arqº Paisagista Luís Paulo Ribeiro, e a sua construção implicou o investimento público de 6,5 milhões de euros (comparticipados em 65 por cento por fundos comunitários). O objetivo que norteou o projecto foi “o de repensar o espaço público num universo complexo de paisagem urbana, industrial, agrícola e natural, sedimentado nas características naturais e culturais da paisagem, promovendo a protecção dos sistemas naturais e a regeneração ecológica das áreas degradadas. Faz também parte de uma intervenção mais ampla de requalificação da zona ribeirinha sul do concelho de Vila Franca de Xira, abrangendo as localidades de Alverca, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria. Preconiza o aproveitamento dos recursos naturais já existentes no sentido de potenciar a fruição por parte da população, assumindo-se como uma infraestrutura estratégica em termos de recreio e lazer.”

O Parque Ribeirinho do Estuário do Tejo proporciona tudo o acima mencionado (e muito mais) a todos os que se dignarem visitá-lo, seja para uma simples caminhada, uma corrida ou um passeio de bicicleta. E tenho para mim que quanto mais o divulgarmos, mais contribuímos para a sua conservação e preservação. A não perder!

pre tejo

Características do percurso – piso: misto (alcatrão, terra batida e calçada); distância total – 6,1 km; distâncias parciais: Trilho da Estação – 1,5 km; Trilho da Verdelha – 1,95 km; Trilho do Forte da Casa – 1,3 km; Trilho do Tejo – 0,7 km; Trilho da Póvoa – 0,63 km; água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 1; coordenadas gps do ponto de partida: n38º 53′ 26″, w9º 1′ 58″; ponto de chegada: n38º 51′ 28″, w9º 3′ 37″.

alt pre tejo