correr em monsanto

a volta do planalto.

parque da pedra. é por entre ciprestes-do-buçaco que dou início a mais um percurso pelos caminhos de monsanto. começo tomando o caminho principal entre as crateras de duas antigas pedreiras até chegar a um pequeno local de merendas, onde desço as escadas que levam até ao caminho que acompanha uma linha de água. pela esquerda percorro umas dezenas de metros até encontrar um desvio à direita e, um pouco adiante, uma ponte de madeira, a qual atravesso. o percurso segue até à estrada alcatroada (da serafina) e continua, do lado oposto, por um trilho mais estreito que sobe entre pinheiros-mansos e eucaliptos.

Planalto

um pouco acima alcanço um caminho mais largo e alcatroado, pelo qual prossigo pela direita até entroncar na estrada da bela vista. pela esquerda subo a ciclovia até à passadeira, a qual atravesso para entrar em novo caminho de terra. sigo pela esquerda logo na primeira bifurcação e subo sempre pelo caminho principal até este fazer uma curva apertada, novamente à esquerda. aqui sigo por um pequeno atalho à direita que me leva de novo à ciclovia na estrada principal, pelo qual prossigo.

decorridos umas dezenas de metros do lado direito passo pelo antigo restaurante panorâmico, cuja degradação avança a olhos vistos, já pouco faltando para que nada mais reste senão uma ruína. verdadeiramente lamentável…

Planalto1

na continuação e no final do muro da área militar sigo pela direita, pelo caminho que encurta a curva em cotovelo que a estrada faz em torno do edifício da telecom. de volta à estrada da bela vista percorro umas dezenas de metros e, no cruzamento, sigo pela direita na av. tenente martins, em direcção à grande clareira do planalto de monsanto.

aqui chegado, tenho pela frente uma área aberta e aplanada que marca a zona mais elevada da serra, pontuada por dois marcos distintos: o conjunto de antenas de telecomunicações militares e o estabelecimento prisional.

Planalto2

criada por decreto em 30 de junho de 1914, a prisão de monsanto começou a funcionar em 1915. construída segundo a lógica do panóptico circular de bentham, é um exemplar único do património prisional edificado português e raro a nível internacional. o carácter panóptico do edifício não resulta de um projecto especificamente pensado para o efeito, mas das condicionantes da fortaleza pré-existentes. o corpo externo segue a linha da muralha, o antigo fosso defensivo foi convertido em pátio e o redondo interno reaproveita parte da estrutura central. até 1956 integrou o organograma das chamadas cadeias civis de lisboa, conjuntamente com o limoeiro e as mónicas, funcionando na actualidade como prisão de alta segurança.

o percurso segue agora por um caminho que começa na cancela do outro lado da estrada, rodeando o planalto e as antenas pelo lado esquerdo. percorridas umas dezenas de metros entro num troço mais estreito em terra batida, pelo qual prossigo até alcançar a orla de uma mata. pela direita chego a um campo de jogos, o qual contorno pela esquerda até atingir a estrada do forte de monsanto. sigo pela esquerda e desço até uma curva, onde tomo o caminho à direita que segue por um bosque de pinheiros e zambujeiros. entro no trilho à esquerda e, bordejando uma antiga pedreira renaturalizada do lado esquerdo, vou descendo até encontrar o caminho principal.

Planalto3

o percurso segue agora paralelo à vedação do campo de tiro, sempre em frente e ignorando dois desvios à esquerda. pouco depois, sigo pela direita num entroncamento, onde as ruínas de uma antiga guarita descansam à sombra de uma enorme azinheira. continuando vislumbro, ao longe, o estuário do tejo e parte da cidade de lisboa. no próximo cruzamento, junto à placa informativa da encosta do barcal, sigo pelo caminho da direita que vai desembocar na av. 24 de janeiro, mesmo em frente a uma passadeira.

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depois de atravessá-la continuo pelo caminho que me conduz à pequena rotunda do acesso ao parque recreativo do alto da serafina. do outro lado da estrada partem dois caminhos paralelos, ambos marcados por sinais de trânsito proibido. sigo pelo caminho da direita até ao cruzamento onde encontro um respiradouro do aqueduto. continuo a descer e chego ao montado de monsanto, em pleno parque do calhau.

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continuo no caminho alcatroado que serpenteia pela encosta até entrar no troço à esquerda que conduz às ruínas do moinho das três cruzes. situado a 115 m de altitude, de paredes de basalto e cantarias de calcário, revela a litologia dos solos de monsanto e proporciona uma vista muito abrangente de sete rios.

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prossigo descendo umas escadas em cimento e por um trilho pouco marcado de volta ao caminho alcatroado principal. um pouco adiante continuo pela esquerda na pista do aqueduto, acompanhando os respiradouros da monumental obra. no fim da pista, mesmo junto do acesso ao aqueduto, sigo pela direita no trilho que percorre as traseiras do bairro da serafina, de regresso ao ponto de partida.

planalto

características do percurso – piso: misto (terra batida, empedrado e alcatrão); distância: 6,4 km; retorno: não (circular); água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 3,5; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 43.916′, w9º 10.592′; altimetria: gráfico abaixo.

alt plan

médio

nada tirar excepto fotos, nada deixar senão as pegadas, nada matar a não ser o tempo.

os miradouros de monsanto.

Parque de estacionamento do bairro do Calhau. É ali que começo este percurso panorâmico, subindo em direcção ao parque com o mesmo nome, tendo à direita um grande prado e à esquerda a orla de um bosque. Percorridos 400 m chego à primeira paragem deste percurso, o miradouro do Moinho das Três Cruzes. 

moinhos das três cruzes. altitude 125 m.

moinhos das três cruzes. altitude 125 m.

Situado a 125 m de altitude proporciona uma vista muito abrangente de Sete Rios e parte do vale de Alcântara, sendo que da construção original nada resta senão as actuais ruínas. Prossigo descendo umas escadas em cimento, entro num trilho pouco marcado pelo qual alcanço o caminho alcatroado principal que atravessa o parque do Calhau, um prado salpicado de sobreiros, azinheiras, carvalhos e pinheiros-mansos, numa paisagem aberta tal como num montado alentejano e que não se encontra em mais nenhum local do parque florestal.

Sigo pela esquerda e, um pouco adiante à direita, entro no caminho estreito e curvilíneo que percorre um bosque de características mediterrânicas que vai desembocar na estrada da Serafina, junto do acesso ao parque de estacionamento do parque recreativo do Alto da Serafina.

alto da serafina. altitude 148 m.

alto da serafina. altitude 148 m.

Também conhecido por parque dos Índios, foi inaugurado em 1992 e ocupa uma área de 5,6 ha, dispondo de um vasto conjunto de equipamentos lúdicos destinados a várias faixas etárias, tais como restaurante, parque de merendas, infantil e de aventuras, escola de condução infantil, coreto e um miradouro que, por cima da copa das árvores, proporciona uma peculiar vista de partes da cidade.

Saio do parque e prossigo pela direita no caminho de terra que segue paralelo à estrada da Serafina até entroncar na estrada da Bela Vista, pela qual subo ao longo de quase 2 km até ao próximo destino, o restaurante panorâmico e respectivo miradouro.

restaurante panorâmico. altitude 205 m.

restaurante panorâmico. altitude 205 m.

Uma das mais belas construções de Monsanto esteve totalmente votada ao abandono e em acelerado estado de degradação, tendo “renascido” em Setembro de 2017 como miradouro privilegiado sobre a capital.

Inicialmente concebido por Keil do Amaral na década de 1930, para o qual idealizou um espaço construído em plataformas baixas, onde o destaque iria para um terraço com esplanada que teria vista desimpedida para Lisboa, para o Vale de Alcântara e para a Margem Sul. No entanto, o restaurante Panorâmico de Monsanto só haveria de ser construído pela CML no decorrer da década de 1960, no mandato de António Vitorino da França Borges, que a presidiu entre 1959 e 1970.

Não tendo gostado da proposta inicial encarregou, logo em 1961, o Arq. Carlos Oldemiro Chaves Costa de desenvolver o segundo projecto do qual resultou o actual edifício. A construção decorreu até 1967, tendo a obra sido dada como totalmente concluída em 1968. Porém, a inauguração oficial do restaurante ocorreu apenas em 1970 (oito anos após a primeira referência ao projecto), tornando-se, desde logo, um local de eleição para as elites do Estado Novo.

Concebido para ser um “dos mais grandiosos [miradouros] de Lisboa […] [e] um eficiente e completo ponto de observação da cidade”, apresenta uma forma circular, com cerca de 16 metros de raio e 7.000 m2 de área, distribuídos por cinco pisos que originalmente concentravam um restaurante, uma esplanada-café, um salão especial para banquetes, um posto de turismo e um miradouro no piso superior. A arquitectura modernista do espaço era rematada por um conjunto de obras de alguns dos principais artistas da época, nomeadamente um baixo-relevo em granito da escultora Maria Teresa Quirino da Fonseca, um painel cerâmico – Figuras e cenas da cidade de Lisboa – de Manuela Madureira e uma pintura a fresco de Luís Dourdil enquadrando a escadaria elíptica do vestíbulo principal.

Para o piso superior foi idealizada uma pequena sala circular com o objectivo de funcionar como um privilegiado miradouro no qual seria possível “não distinguir a cidade de molde a colher o pormenor que qualquer um dos outros permite, mas, a contrabalançar esse inconveniente, pode-se recolher dela uma melhor vista de conjunto”. Seguindo o que já havia feito noutros espaços panorâmicos da cidade, a CML procedeu à instalação de um leitor panorâmico, ainda que com características particularmente distintas dos demais, aproveitando o facto de três quartos do espaço se encontrar envidraçado (permitindo uma panorâmica com cerca de 270º). O enorme painel semicircular com mais de 30 metros de comprimento sob os janelões reproduz uma vista que acompanha o desenvolvimento da cidade e seus arredores, de Carnide até Cascais. Neste local existe ainda um painel de azulejos com imagens de Lisboa antes do terramoto de 1755, cuja autoria coube à ceramista Manuela Ribeiro Soares.

Apesar da solução de recurso encontrada, este emblemático espaço foi devolvido à cidade para usufruto de todos quantos queiram apreciar as espectaculares vistas que proporciona.

pm

panorâmico de monsanto. fotos de joão brites geraldes. arquivo municipal de lisboa.

Vencida a estrada da Bela Vista prossigo pela Av. Tenente Martins até às rotundas de Monsanto. Atravesso o viaduto sobre a A5 e a estrada do Alvito pela passadeira do lado esquerdo, após o que entro no trilho do circuito de manutenção e subo em direcção à casa dos serviços florestais, chegando assim à quarta paragem deste percurso, o miradouro Keil do Amaral.

keil do amaral. altitude 188 m.

keil do amaral. altitude 188 m.

Em 1940, o arquitecto projectou um centro de desportos para esta área, do qual só foi construído o miradouro, um bonito local que desce em pequenos socalcos empedrados até um patamar de onde se tem uma vista sobre a Tapada da Ajuda, o estuário do Tejo, a ponte e o Cristo Rei, este já na outra margem.

Apreciadas as vistas continuo o percurso descendo as escadas em pedra que acedem ao trilho que me leva até ao miradouro do Moinho do Penedo ou do Alferes.

moinho do penedo. altitude 198 m.

moinho do penedo. altitude 198 m.

Em meados do século XIX existiam cerca de 75 moinhos em Monsanto, dos quais o do Penedo foi o último a encerrar no ano de 1925. O projecto para o parque tornou-o, em 1942, num miradouro, do qual se abre uma enorme clareira onde se encaixa o anfiteatro, proporcionando uma espectacular vista em tudo semelhante à da paragem anterior.

Deixo o moinho para trás e desço pelo caminho de terra que segue paralelo à alameda até chegar à estrada do Penedo, a qual atravesso na passadeira. De seguida subo pela pequena alameda de ciprestes e chego ao miradouro do jardim de Montes Claros.

montes claros. altitude 181 m.

montes claros. altitude 181 m.

Construído em 1946, inicialmente como casa de chá, é um amplo e aprazível espaço de linhas sóbrias com vários locais que convidam a uma pausa. A ampliação para restaurante aconteceu em 1949, não se alterando o seu miradouro que permanece como um dos mais aprazíveis que a serra oferece, agora com aspecto bastante cuidado em virtude da recente intervenção que visou a recuperação do edifício e toda a sua envolvente.

montes claros. vistas.

montes claros. acesso ao patamar superior e vistas.

Prossigo descendo o trilho paralelo à estrada do Outeiro e, após percorrer 1,8 km viro à direita na pista da encosta das Lunetas, pela qual subo até ao próximo destino que dá pelo nome de miradouro dos Moinhos do Mocho.

moinhos do mocho. altitude 170 m.

moinhos do mocho. altitude 170 m.

Construídos durante o período do Estado Novo, com a sobriedade e austeridade características do seu autor, o arquitecto Keil do Amaral, é uma área de estadia onde se destacam dois moinhos, lembrando um passado em que campos cerealíferos revestiam a serra. Meio escondido na floresta e pouco visitado, este tranquilo local também se encontra em acelerado estado de degradação por via do abandono a que foi votado, não se vislumbrando dali qualquer panorâmica digna de registo.

Por fim e após três centenas de metros percorridos na pista principal chego ao miradouro da Luneta dos Quartéis, a derradeira paragem deste percurso.

luneta dos quartéis. altitude 178 m.

luneta dos quartéis. altitude 178 m.

Percorro o miradouro pelo lado de fora, num espaço outrora ajardinado e com uns bancos voltados para as vistas, de onde são bem visíveis as marcas do desordenamento do território e da ocupação anárquica de solos nos subúrbios de Lisboa. Para este local, hoje totalmente abandonado, existe a intenção (por iniciativa da União Budista Portuguesa) de instalar um templo budista, denominado Casa da Paz. Com este ou outro projecto é urgente que o local seja recuperado, de forma a evitar que, a curto prazo, nada mais reste senão um amontoado de ruínas.

Visitados todos os miradouros deste percurso é tempo de voltar ao ponto de partida, o que faço percorrendo os trilhos da pista da Rua Fria até ao entroncamento com a encosta do Barcal. Ali chegado desço em direção ao caminho que segue paralelo à estrada com o mesmo nome e continuo até ao cruzamento com a Av. 24 de Janeiro. Após atravessar esta via entro na pista ladeada pelo muro do palácio do Marquês de Fronteira, a qual termina junto ao parque de estacionamento de onde parti há 14 km atrás.

Este é talvez um dos percursos mais bonitos para se fazer em Monsanto, mas também um dos mais exigentes pelos desníveis que apresenta. Porém o esforço é largamente recompensado, não só pelas bonitas vistas panorâmicas que proporciona, mas também pela tranquilidade dos locais visitados. Fica a sugestão.

miradouros de monsanto

Características do percurso – piso: misto (terra batida, gravilha, empedrado e alcatrão); distância: 14 km; retorno: não (circular); água: sim; estacionamento: fácil; grau de dificuldade (1 a 5): 4; coordenadas gps do ponto inicial/final: n38º 44.342′, w9º 10.655′; altimetria: gráfico abaixo.

alto

alt miradouros monsanto

nada tirar excepto fotos, nada deixar senão as pegadas, nada matar a não ser o tempo.

monsanto lx1